Com os olhos atentos e os pés seguindo o ritmo da bateria, Rian Levi, 10 anos, pisou firme no circuito Maneca Ferreira durante a apresentação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Nativos de Santana. Tímido e de poucas palavras, o pequeno dançarino carrega três anos de experiência na dança. “Gosto de dançar e dos ensaios. Quero continuar”, disse, com sorriso contido e convicto.
Enquanto ele vivia mais um desfile na avenida, a rainha de bateria Graziele Lima, 31 anos, brilhava à frente do grupo com alegria escancarada no rosto. Moradora do bairro Gabriela, foi convidada pela escola para reinar pela primeira vez. “Superou minhas expectativas. Todo mundo muito prestativo, clima de família. A gente ensaiou com carinho e queremos passar para o folião muita alegria, felicidade e amor”, frisou.
Rian e Graziele simbolizam duas pontas da mesma corrente: o legado e a renovação de uma tradição cultural que resiste e floresce. Fundada em 1992 no bairro Rua Nova, a Nativos de Santana nasceu da criatividade e resistência. “A gente fazia instrumentos com lata. Fomos crescendo, o povo gostando, e fundamos a escola”, relembra o presidente e fundador, Orlando dos Santos, de 80 anos.
Neste sábado (3), a Nativos levou à avenida cerca de 100 integrantes dos bairros Rua Nova e Baraúnas, com o enredo “Festa de Caboclo”. Com fantasias confeccionadas, em grande maioria, pelos próprios membros, o grupo apresentou um desfile vibrante e carregado de emoção. Houve ainda homenagem ao saudoso produtor cultural Jorge Soweto, com foto estampada em um banner.
A diretora Edmeire Ribeiro, filha do presidente, resumiu o sentimento coletivo: “Foi muito esforço, dedicação e amor. A percussão, a dança, a formação das baianas, o mestre-sala, a rainha da bateria… Tudo feito para entregar um trabalho bonito para o povo.”
A Nativos de Santana é uma das 14 entidades de matriz africana contempladas pelo Programa Ouro Negro, que reforça o compromisso do Governo do Estado com o fortalecimento da cultura afro-brasileira. Com investimento de R$ 26 milhões na Micareta 2025, parte dos recursos foi destinada a blocos de samba, afros, afoxés e grupos culturais que mantêm viva a ancestralidade e promovem ações socioculturais nas comunidades.
“A presença das escolas de samba na avenida representa a valorização da cultura. Se fosse por mim, teria grupo cultural entre cada trio”, defendeu a foliona Emannuela Maier, 37.
Com o apoio da Secretaria de Cultura (SecultBa) e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi), o Programa Ouro Negro 2025 reafirma a importância da arte como ferramenta de resistência e identidade.