No compasso do surdo, entre brilhos e passos marcados, a Escola de Samba Brasil Meu Samba desfilou neste sábado (3), na Micareta de Feira, com um espetáculo de cores vibrantes, fantasias elaboradas e muita emoção. Com o tema "Escravidão no Brasil", a escola levou ao circuito Maneca Ferreira história e ancestralidade, com cerca de 180 integrantes.
O grupo saiu do cruzamento das avenidas Presidente Dutra com Maria Quitéria, mostrando que o samba também tem lugar de destaque no maior Carnaval fora de época do país. Fundada em 1990 no bairro Rua Nova, a Brasil Meu Samba é uma das entidades culturais de matriz africana contempladas pelo Programa Ouro Negro 2025, iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Cultura da Bahia (SecultBA), que concede apoio financeiro às entidades de matrizes africanas como blocos afro, afoxés, samba, reggae e blocos de índio, para a realização dos seus desfiles carnavalescos.
O apoio tem sido essencial à manutenção e fortalecimento do trabalho da escola, como destaca a presidente Elisângela Lima:
“A gente ensaia o ano todo. Hoje a escola é mantida principalmente com apoio do Governo do Estado. E, neste desfile, o que queremos passar para o folião é brilho e alegria.”
As fantasias, que arrancaram elogios do público ao longo do desfile, foram resultado de muito esforço coletivo. Parte foi confeccionada por integrantes, como a fundadora Waldete Barreiros, a dona Dete, de 72 anos, que também buscou adereços em São Paulo. “Sigo na linha de frente, costuro, componho e organizo. Faltando quatro meses para a Micareta já estou na máquina. Não vou deixar a escola morrer, pelo amor que tenho por ela”, afirma. Fundadora também do Afoxé Filhos de Ogum, dona Dete tem papel fundamental na mobilização cultural da comunidade.
A estrutura da escola, com suas alas variadas - como as baianas, passistas, mestre-sala comissão de frente, porta-bandeira e rainha de bateria - encantou quem acompanhava o desfile. Cada figura tem papel essencial para dar forma ao espetáculo, como pontua o dançarino Davi Maia, 29, integrante há mais de 10 anos.
“A escola quebra preconceitos. E o que eu sinto é gratidão pela beleza e alegria que levamos para a avenida.”
Para Adelson da Silva Junior, cantor e filho de dona Dete, a escola é uma herança viva: “Faço parte desde criança. A escola me trouxe muito conhecimento e fortaleceu meu laço com a cultura africana. Hoje, minha filha de 17 anos também já desfila”, celebra.
O sentimento de pertencimento ultrapassa os limites da escola. O ambulante Ednaldo Moreira, que vendia lanches durante o desfile, parou para aplaudir: “A participação desses grupos na festa é maravilhosa! A cultura, a raiz, a representatividade. As fantasias estão lindas, cheias de cores. Gosto demais disso.”
O Programa Ouro Negro contempla 14 entidades culturais na Micareta de Feira 2025, fortalecendo a presença de blocos afros, afoxés, escolas de samba e outros grupos de matriz africana. Além da Brasil Meu Samba, a Nativos de Santana, Sorriso Negro, Nagôs, MoviAfro, Flor de Ijexá e Quilombo também desfilaram neste sábado.