O evento que aconteceu nos dias 27 e 28 de outubro no Parque Tecnológico da Bahia ofereceu oficinas interativas de foguetes, criação de jogos digitais e robótica, além de experiências imersivas com óculos de realidade virtual
Com o objetivo de impulsionar a equidade de gênero e o empoderamento feminino por meio do conhecimento, a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia (SPM) esteve presente na 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) na Bahia. Sob o tema “Ciência Delas”, o evento ocorreu nos dias 27 e 28 de outubro, das 9h às 18h, no Parque Tecnológico da Bahia, em Salvador. A iniciativa é do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e conta com a coordenação estadual da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), além de atividades em diversos municípios do interior baiano.
A programação gratuita reúne oficinas interativas de foguetes, criação de jogos digitais e robótica, além de experiências imersivas com óculos de realidade virtual. Para a SPM, o evento é um marco no incentivo à inserção de meninas e mulheres na pesquisa e na tecnologia, combatendo as disparidades de gênero e raciais que historicamente afastam a população feminina e negra das áreas de ciências exatas e inovação.
Durante a abertura oficial do evento, a secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, Camilla Batista, ressaltou o papel da tecnologia na emancipação social, na representatividade e na soberania política das mulheres e o apoio do governo estadual aos projetos apresentados.
"O tema da nossa Semana Nacional ser 'Ciência Delas' é trazer a visibilidade da participação das meninas e do empoderamento na educação, na tecnologia e, acima de tudo, na soberania. Falar sobre tecnologia é falar sobre soberania do seu povo, é falar sobre a participação da nossa sociedade no desenvolvimento. Queremos garantir esse incentivo do governo do Estado para o desenvolvimento da nossa cidade, do nosso Estado e do nosso país", afirmou a secretária Camilla Batista.
A secretária também pontuou as estratégias da SPM para utilizar as inovações tecnológicas como ferramentas de proteção social. "Para gente é importante trabalhar com gamificação para o desenvolvimento do enfrentamento à violência. Porque, infelizmente, nós ainda temos as nossas plataformas digitais sendo ocupadas pelo discurso do ódio", completou Camilla.
O secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) Edson Porto também reforçou a necessidade de descentralizar o acesso à ciência. “Queremos aproximar a ciência e a tecnologia da população, criando oportunidades para que estudantes e toda a sociedade conheçam, na prática, as possibilidades da pesquisa e da inovação. Com o tema ‘Ciência Delas’, também damos visibilidade à contribuição de meninas e mulheres para a ciência e incentivamos novas gerações a reconhecerem seu potencial nesses espaços”, declarou.
Inclusão digital e o combate ao gap tecnológico de jovens negras e indígenas
Além do foco em gênero, a 23ª SNCT abriu espaço para debates profundos sobre a democratização do acesso às ferramentas tecnológicas e à formação qualificada. O estande do projeto Black XP (Black Experience), idealizado pela desenvolvedora de jogos Tata Ribeiro, apresentou os impactos de uma jornada formativa voltada a jovens estudantes negros e indígenas, com foco direto na superação do abismo digital.
Em sua participação, Tata Ribeiro trouxe dados alarmantes sobre o acesso a computadores no Brasil e defendeu a urgência de políticas de permanência para que mais meninas negras ocupem a TI.
"A gente parte dos dados de gap digital e as pessoas negras são as que menos têm acesso à formação, programas de formação em tecnologia. Nosso programa é Black XP, que é sobre a experiência negra no mercado de tecnologia. A partir dessa experiência, a gente incentiva os jovens através do nosso programa de formação. A gente tem uma plataforma Ava de formação, com videoaulas, que é uma jornada gamificada onde, no final de cada módulo, eles passam por desafios e são premiados com os equipamentos", explicou a desenvolvedora.
Tata ressaltou o impacto social dessa política de fomento à infraestrutura básica. "Os equipamentos a gente tem, tem uma política de permanência, porque a maioria desses jovens não têm os equipamentos em casa. Vou trazer uma estatística muito triste para você agora: uma criança branca tem o seu primeiro computador entre 7 e 10 anos. As crianças negras passam a infância toda sem computador. Muitas vezes elas só compram esse primeiro equipamento na vida adulta e às vezes esse é o primeiro equipamento da casa. Então, esse debate sobre inclusão, ele é muito mais profundo do que a gente pode alcançar, mas isso nunca foi um impedimento para a gente", desabafou.
Iniciado em 2024, o programa já colhe frutos práticos no ecossistema baiano, capacitando mais de 350 jovens. "A acessibilidade ao programa de formação, ela é fundamental para a gente, para que outras tantas meninas negras possam acessar esses espaços. Lavínia participou do nosso primeiro programa de formação (...) e ela usou o dinheiro do prêmio para comprar um notebook. Hoje ela tem o próprio estúdio, já foi premiada em um edital, trabalha no Parque Tecnológico da Bahia e trabalha desenvolvendo jogos, prestando serviço para outros estúdios e criando já uma possibilidade de empregabilidade para outras pessoas", celebrou Tatá.
Ciência na prática: estudantes da rede pública lideram a inovação
O protagonismo feminino defendido pela SPM ganha forma nos estandes do Parque Tecnológico, ocupados majoritariamente por jovens cientistas de escolas públicas. Outro grande destaque do evento foi o Clube Orbit, do Colégio Central, formado quase em sua totalidade por mulheres.
A estudante Anistia Maciel, de 19 anos, integrante do clube, explicou como a iniciativa funciona como porta de entrada para que mais mulheres percebam seu potencial no ecossistema científico e desenvolvam autonomia financeira.
"O nosso clube é majoritariamente de mulheres. Com isso, a gente consegue apresentar que a gente pode fazer ciência de várias formas, em amplas categorias. Conseguimos também mostrar às meninas e mulheres que não têm tanta acessibilidade, mostrar que é possível: desde o básico até o superior, ela pode entrar e fazer parte disso", relatou Anistia.
O grupo levou para a feira projetos focados em sustentabilidade, engenharia de baixo custo e empreendedorismo feminino com o projeto "Do Mar à Moradia", que transforma óleo de cozinha usado em velas e sabão , que desenvolve placas de revestimento sustentável a partir de conchas de lambreta descartadas por restaurantes locais.
"As velas a gente faz parceria com o pessoal da comunidade. Fazemos a filtragem do óleo, toda a limpeza, usamos parafina e essências. Estamos querendo criar uma cartilha também para as meninas e mulheres empreenderem com isso, para elas terem um espaço delas de fazer a ciência e criarem a independência delas. Elas podem ver que não precisa de algo muito grandioso, precisam só de um pontapé inicial", detalhou a estudante, ressaltando ainda o impacto social das placas de revestimento para habitações vulneráveis: "O nosso produto é de baixo custo. Uma placa, por exemplo, custa às vezes R$1,50. É metade da metade do preço do mercado, para levar para as casas e dar uma nova estrutura para as pessoas de comunidades carentes".