Mulheres que se empoderam. Comunidades que se reconhecem e se fortalecem

23/03/2023

Raimunda Santos cresceu na comunidade Alto do Capim, no Complexo Nordeste de Amaralina, em Salvador. Bisavó, avó, mãe de dois filhos, é conhecida como a ‘Negona Rai’ pelos amigos e familiares. Escolheu a Assistência Social para ‘sentar na cadeira da ciência’ e esse foi o primeiro passo como uma mulher, negra, que queria amplificar sua voz e ajudar outras mulheres a ocuparem espaços de autonomia e visibilidade.

Ela é colaboradora na Superintendência da Agricultura Familiar (SUAF) e sua experiência pioneira foi com políticas de desenvolvimento rural foi através do concurso de REDA para atuar na então Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), período em que foi a primeira mulher negra a ser homenageada e ganhar o prêmio Margarida Alves de Estudos Rurais. Hoje tem se dedicado à Coordenação de Políticas para Jovens, Mulheres, Povos e Comunidades Tradicionais, buscando fortalecer as políticas do campo e visando potencializar os debates de gênero e raciais na SDR.

O racismo e o machismo estão aí, é uma batalha todos os dias. Tem histórias que você diz: meu Deus, nem parece que a gente está no século 21”, conta Rai, enquanto demostra o orgulho desse espaço que a possibilita atuar em frentes de lutas que vivencia enquanto mulher negra.

Durante anos de construção, algumas destas questões sempre inquietaram Raimunda. “Nessas andanças pelos municípios, eu me questionava porque tinha poucas mulheres nas organizações e associações em cargos de direção, em especial mulheres negras, sendo que a gente via que tinha muitas com capacidade”. Foi por meio de contribuições de colaboradoras como ela que a SDR começou a executar estratégias de organização de políticas de gênero, com debates e formações sendo fomentados nas comunidades. “É como se a gente fosse dando um remédio aos poucos”, explica a colaboradora.

Uma dessas estratégias é a entrega dos Selos Quilombos do Brasil, criado para promover a identidade e dar visibilidade à produção dos povos quilombolas. Um importante ator étnico-cultural de preservação da história do país. Além disso, reforça o papel do Estado na redução das desigualdades e na erradicação da marginalização das mulheres e do povo negro, afinal, como conta a Raimunda, “os quilombos sofrem muito preconceito. O racismo é muito pior principalmente no campo. Entregar esses títulos é o Estado reconhecendo que naquela comunidade existem produtos de qualidade sendo produzidos e comercializados”.

A política, executada pela Superintendência de Agricultura Familiar e desenvolvida junto ao Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar (Sipaf), também ajuda na organização da comunidade. Associada ao debate de gênero, é possível perceber sua contribuição na autonomia das mulheres geradoras de renda de suas comunidades. “Essas mulheres conseguem inclusive sair de suas comunidades e expor seus produtos nas feiras que produzimos. Uma forma de reconhecer a qualidade dos produtos quilombolas da Bahia” ressalta.

Um exemplo claro é a comunidade na cidade de Entre Rios, terra da nossa outra entrevistada. Uma mulher, negra, que por meio de ações da SDR consegue enfrentar estigmas sociais, de gênero e raciais. Rosana Quilombola, como é conhecida Rosana dos Santos, moradora do Quilombo Limoeiro, é mãe, avó e conquistou seu reconhecimento como mulher agricultora através do Selo Quilombos do Brasil.

Hoje eu trabalho como agricultora, planto e colho no meu próprio quintal. Não tenho escolaridade e a profissão que exerço é o trabalho com agricultura familiar, que para mim é muito bom. É um trabalho muito gratificante”, explica.

O Selo Quilombos do Brasil reconhece a importância dos quilombos para a agricultura familiar e faz parte de uma agenda que tem como prioridade o combate às violências de gênero e raciais, que tanto impactam na vida destas mulheres quilombolas. “O racismo está presente na vida dos quilombolas e as comunidades ainda sofrem. São coisas que lutamos por melhorias”, conta Rosana.

Atualmente, a Bahia é o estado com o maior número de Selos Quilombos do Brasil emitidos. Quando perguntada sobre a sua importância, a quilombola é enfática: “o selo tem dado muita visibilidade, qualidade aos nossos produtos e tem mudado muito a nossa comunidade. O que tem o selo do Quilombo Limoeiro não volta para casa. Isso impactou bastante em nossa venda”.

A comunidade de Rosana é responsável pela comercialização de produtos como aipim, farinha de beiju, manga, abacate, galinha caipira, ovos e coco. As mulheres, que somam mais de 200, hoje têm visibilidade graças à projetos como este e são responsáveis por grande parte da produção. “Como não falar que a SDR mudou as nossas vidas? Ela mudou as nossas vidas para melhor. Antes não tínhamos o conhecimento que temos hoje. Foi uma mudança da água para o vinho porque nós não éramos ninguém. A SDR mudou totalmente o nosso estilo de vida na comunidade”, conta a agricultora.

Essa reportagem faz parte de uma série de matérias especiais que sairão ao longo deste mês de março como reconhecimento da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) às mulheres que contribuem com as políticas de fortalecimento da agricultura familiar, transformando vidas e realidades de famílias baianas.

Foto: Lucas Gonçalves/SDR

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