Sepromi destaca terreiro Ilê Agboulá como patrimônio e resistência das religiões de matriz africana

24/08/2019
A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) participou neste sábado (24), no município de Itaparica, das festividades alusivas aos 85 anos do terreiro Omo Ilê Agboulá, com presença da titular da pasta, Fabya Reis. A casa religiosa é dedicada ao culto aos Egunguns (ancestrais africanos masculinos), sendo considerada uma das mais antigas, desta natureza, em funcionamento do Brasil.

A programação da festa incluiu o tombamento do espaço como Patrimônio Cultural Brasileiro e entrega das obras de restauração pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desde sexta-feira (23) um seminário acontece no local, debatendo um conjunto de temas relacionados à proteção e salvaguarda da cultura das religiões de matriz africana.

A secretária Fabya Reis afirmou que as festividades podem ser entendidas como uma oportunidade de valorização das contribuições do povo negro ao país e reforço à defesa dos seus direitos. "Este grande acontecimento nos inspira e renova compromissos pelo enfrentamento ao racismo religioso, trabalho para o qual temos dedicado especial atenção. Seguimos firmes aprendendo, todos os dias, com este legado de resistência e preservação da memória ancestral", pontuou a gestora uma das oradoras do seminário. Ela elencou a série de ações do Governo do Estado destinada aos povos e comunidades tradicionais, através do Estatuto da Igualdade Racial.

As atividades no Ilê Agboulá também contaram com a participação de lideranças religiosas, pesquisadores, autoridades, representações governamentais e acadêmicos de diversos estados brasileiros.

Restauração

As intervenções no terreiro, previstas em um projeto de conservação de terreiros tombados, elaborado em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), foram impulsionadas após a queda de uma árvore que atingiu e danificou a estrutura da Casa do Renascimento, área sagrada em que somente os iniciados do terreiro podem ter acesso. O Barracão, local onde são realizadas as cerimônias públicas, também foi reformado.

Durante a obra, membros do próprio terreiro foram contratados pela empresa executora após capacitação ofertada pelo acordo de cooperação firmado entre Iphan e UFBA. Com a formação, os integrantes ganham autonomia para executar eventuais intervenções emergenciais no espaço sem depender de aporte financeiro e técnico.

Para o alabá Balbino Daniel de Paula, responsável espiritual pelo terreiro, as obras de restauração são fundamentais para a preservação do Patrimônio Cultural. “O que é mais valoroso nesse contexto é que as futuras gerações não perderão o direito de receber esse patrimônio. Eles têm o direito de receber e também de preservar tanto quanto nós”, explica.

Trajetória de resistência

O "Ilê Agboulá" ou "Omo Ilê Agbôula" foi o primeiro terreiro do Brasil a cultuar os Egunguns trazidos da África. Está localizado no Alto da Bela Vista, em Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, estado da Bahia.  Sua fundação remonta ao primeiro quarto do século XX, por Eduardo Daniel de Paula, Tio Opê, Tio Serafim e Tio Marcos, mas a comunidade que lhe deu origem e que lhe mantém os fundamentos está estabelecida na ilha há cerca de duzentos anos.

Essa comunidade está composta por cerca de 100 famílias que vivem da pesca, da coleta e venda de frutos e, hoje, de pequenos empregos propiciados pela indústria turística que se expande na ilha. Apesar de todas as transformações que os tempos ocasionaram em Itaparica, a comunidade do Ilê Agboulá se mantém coesa. Mesmo aqueles que não moram mais na localidade, retornam sempre que há oportunidade, nas ocasiões de festas e obrigações, reatando os laços que os unem à sua ancestralidade africana.


*Com informações do IPHAN.