12/06/2003
16 por 12. Para o major PM Raimundo Roque Hermano, de 47 anos, medir a pressão arterial é o momento de enfrentar a condição de hipertenso. Ele esboça um sorriso bem humorado, mas as tentativas de se justificar traem a preocupação com a saúde. "Faço caminhadas sempre. Por esses dias, não fiz porque está chovendo". Raimundo é um dos primeiros policiais militares encaminhados para acompanhamento da equipe médica do Projeto Piloto na Polícia Militar para Assistência a Diabéticos e Hipertensos.
Lançado hoje (30), na Academia da Polícia Militar, pelo secretário da Administração, Marcelo Barros, e pelo comandante geral da PM, coronel Jorge Santana, o megaprojeto vai monitorar, inicialmente, a saúde de 45 mil policiais militares e seus dependentes, beneficiários do Planserv e residentes em Salvador. A iniciativa integra o Programa Mais Saúde, do Planserv.
Ao longo de toda a manhã, a equipe do Hospital Geral da PM mediu a pressão e a glicemia dos policiais que trabalham na Academia. Funcionário do Instituto de Ensino, o major Hermano vai precisar de orientação cuidadosa da equipe multidisciplinar que, instalada no hospital a partir de agora, está incumbida de montar um banco de dados de diabéticos e hipertensos na PM, e de dar suporte a quem apresentar sintomas dessas doenças.
A glicemia, que mediu 84, é normal, mas Hermano confessa que não faz nenhum tipo de dieta - procedimento recomendado para quem sofre de hipertensão. Agora, ele se diz com disposição para ouvir os conselhos da equipe do projeto, formada por enfermeiro, médico, assistente social, nutricionista e auxiliares de enfermagem.
O projeto conta ainda com o suporte de especialistas: dentista, nefrologista, oftalmologista e cardiologista. No caso dos diabéticos, o encaminhamento, caso a doença já não possa mais ser controlada por medidas preventivas, será para o tratamento por endocrinologista da rede Planserv.
Expansão
A opção por tratar desses males por meio de um programa de saúde preventiva é estratégica: doença crônica e degenerativa, a hipertensão acomete cerca de 20% da população brasileira, e está na raiz de problemas como infarto, derrame, insuficiência cardíaca e renal e comprometimento da visão.
Com o diabetes não é diferente. A endocrinologista Teresa Gouveia, da Coordenação do Programa Estadual de Controle do Diabetes e da Hipertensão, da Secretaria da Saúde, revelou que o diabetes atingia 7,6% da população de Salvador em 1998, saltando, hoje, para 15,8%.
A especialista, que fez palestra no lançamento do projeto na PM, disse que parte do aumento pode ser creditada ao maior rigor no trabalho de notificação. "Mas não há dúvida de que o diabetes está se expandindo", afirmou. Sem tratamento, o diabetes pode, entre outros efeitos, afetar os rins, produzindo insuficiência renal crônica; os olhos (retinopatia); e o sistema nervoso (neuropatias).
"Trata-se de uma doença de impacto socioeconômico significativo, que contribui para a segregação do seu portador", disse a especialista. O diabetes, segundo ela, tem outra característica importante: sua abrangência é universal, não respeitando raça, classe social ou localização geográfica.
Em um mundo onde o controle da dieta passou a ser um apelo de caráter epidemiológico, a expansão do diabetes parece confirmar as mais sombrias preocupações: em 1994, os portadores de diabetes de tipo 1 ou 2 eram 110 milhões em todo o planeta. De acordo com Teresa Gouveia, em 2000, o número já era de 175 milhões, e, em 2010, calcula-se que chegue a 239 milhões.
Cuidado com a prevenção
O comandante geral da PM, coronel Jorge Santana, deu o próprio testemunho para demonstrar o cuidado com a prevenção. "Descobri que era hipertenso aos 34 anos", revelou. Ele destacou que esse diagnóstico foi importante para que, a partir de então, fosse possível tratar da tendência à pressão alta. "Levo uma vida normal", disse o comandante, hoje com 51 anos. Ele toma cuidado com a dieta, e mede sempre a pressão arterial.
Segundo o comandante, o Projeto Piloto na Polícia Militar para Assistência a Diabéticos e Hipertensos começa na Academia da PM para, em seguida, expandir-se para todos os batalhões da capital, devendo alcançar também o interior. "Estamos na expectativa de muitos benefícios com esse trabalho preventivo", afirmou.
O objetivo do programa Mais Saúde, de acordo com o secretário Marcelo Barros, é alcançar todos os 460 mil beneficiários do Planserv. "Vamos identificar no início todas as doenças que podem ser prevenidas", afirmou. Ele destacou que a assistência à saúde dos servidores públicos estaduais vem alcançando números expressivos, como os seis mil atendimentos realizados diariamente. "O Planserv representa uma alternativa de baixo custo para o servidor, e possui uma rede de mais de mil prestadores, na capital e no interior".
O Mais Saúde tem uma pauta ampla, com diversas áreas de atuação, voltadas para todos os beneficiários ou para grupos específicos. "Diabetes, hipertensão, alcoolismo, obesidade, tabagismo e planejamento familiar interessam às pessoas independentemente da faixa etária ou do sexo", explicou o coordenador do Planserv, Vespasiano Neto. "Em outros casos, vamos atuar de acordo com o público-alvo".
Fonte: SAEB