Obras "Corações de Vidro" e "A Justiça é Uma Mulher Negra" são lançadas na Flica. SJDH segue promovendo educação e cultura em direitos humanos na maior festa literária do Nordeste

30/10/2023
O segundo dia de incidência da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH) na 11ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira está cheio de emoção, representatidade, arte e literatura. Mais duas obras literárias no campo dos direitos humanos foram lançadas nesta sexta-feira (27), no Palco da Independência. Primeiro, pela manhã, a autora Glady Maria apresentou o livro "Corações de Vidro". Já pela tarde, foi a vez de Lívia Sant’Anna Vaz relançar o livro "A Justiça é Uma Mulher Negra", obra que divide a autoria com Chiara Ramos.

Os lançamentos foram conduzidos a partir de ciclos de debates, mediados por Bianca Souza, assistente jurídica no Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBTQIA+/SJDH. Mulher com síndrome de osteogênese imperfeita (ossos frágeis) vence a diversidade e lança seu primeiro livro. Assim se define Glayd Maria, mulher com deficiência na condição de cadeirante, ao falar da sua biografia apresentada em Corações de Vidro, primeira publicação da autora.

"Precisei me conhecer para a autoaceitação como uma mulher cadeirante, que tem o direito de viver e sentir todas as coisas que outras pessoas têm. Estamos numa era da normalização dos corpos ditos normais, e que tudo que se encaixa fora dessa concepção de normalidade não é aceito. Estamos vivendo numa sociedade onde o 'belo' prevalece. Passam a vida buscando o corpo perfeito, os pares perfeitos. No processo de aceitação, eu tive que ressignificar tudo isso", afirmou Gladys.

Em continuidade ao diálogo sobre publicações no campo da educação e cultura em direitos humanos, a autora Lívia Sant’Anna relançou "A Justiça é Uma Mulher Negra" na Flica. A publicação nasce de uma luta contra o epistemicídio jurídico, da solidão institucional.

 "Quando falo de solidão, falo de ser uma das poucas mulheres negras no sistema de justiça. Ao conseguirmos acessar essa bolha, esses espaços de poder, nos deparamos com essa tal solidão, e ao adquirirmos consciência racial, vamos entendendo que não adianta ser a única mulher negra naquele espaço. Nós somos o último país a abolir a escravidão, uma liberdade para um destino certo: da falta de tudo, dos morros, da ausência do direito, dos privilégios brancos", afirmou Vaz.

A obra é dividida em xirês (narrativas orais que se convertem em escrita), e no primeiro, as autoras abordam as dores das mulheres negras, de como buscar - num futuro ancestral - a verdadeira democracia. "É nesse futuro que vamos buscar o sentido verdadeiro de democracia, onde caibamos, que não seja de poucos e nem marginalize os nossos corpos negros", endossou Lívia Vaz.

Vaz ainda provocou reflexões sobre meritocracia que, há séculos, têm beneficiado o homem branco, num país onde pessoas negras partem do zero e não herdam ascensão ao poder; consciência racial; o sistema judiciário brasileiro racista e sexista; juiz branco x réu negra/o; sociedade plural a partir do conceito de interseccionalidade; epistemicídio; entre outras abordagens. 

"Nós últimos 15 anos, as universidades públicas instituíram o sistema de cotas. E, nesse mesmo tempo, construímos e reunimos uma produção acadêmica negra muito grande e, ainda assim, essa produção não conseguiu se impor no debate acadêmico. Isso é o que o epistemicídio faz, tenta sempre anular a intelectualidade e cultura negra", afirmou Luiz Alberto, assessor especial da SJDH.

Debate Literário - Amanhã, 28, é a vez do secretário (SJDH) Felipe Freitas debater o tema "Literatura como um Direito Humano da Juventude", no espaço Geração Flica, localizado na Estação Ferroviária, às 10h. 

Arte e literatura - Além de promover lançamentos literários, a SJDH tem incidido na Flica com exposição artística. Trata-se de "Axenianas", com 15 máscaras expostas pelos corredores principais da Fundação Hansen. A exposição coletiva apresenta as máscaras cotidianas que encarnam em sua origem histórica e mítica, a própria e notável identidade humana. De autoria dos adolescentes e jovens das artes visuais do Projeto Axé, instituição mantida pela SJDH, a obra carrega representatividade fazendo uma ponte contemporânea entre Brasil e África.