Corra pro Abraço realiza aula inaugural da 5ª edição do curso de redução de danos

12/09/2019

O Programa Corra pro Abraço, da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS), realizou na tarde desta quarta-feira (11), no auditório da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE), no Vale do Canela, a aula inaugural da 5º edição Curso de Redução de Danos e Referência de Campo, intitulada “Afinal, o que é redução de danos?”, com falas dos redutores de danos Frank Ribeiro, supervisor de campo da iniciativa estadual, e de Gessé Oliveira, da unidade de acolhimento municipal Casa da Ladeira. O momento ainda contou com a certificação de quinze cursistas da quarta turma.

Frank Ribeiro enfatizou como a redução de danos está focada no “sujeito e na sua autonomia e a substância é secundária”. “É um conjunto de estratégias que minimiza os riscos biológicos e sociais. E o surgimento da figura do redutor de danos é um paradigma. Todo mundo pode ter postura redutora, mas precisa existir o agente redutor de danos”, disse. O sociólogo falou sobre o processo de regulamentação da profissão. “A área do redutor têm muitas variáveis. Pode ser redutor de danos, socioeducativo, educador social na rua e conselheiro de dependente químico. Como é algo novo, a construção da categoria foi balizada no modelo anterior que é o da abstinência. Não concordamos, mas, sabemos que é um processo. As pessoas não são dependentes químicas. São pessoas! E nós promovemos saúde e cidadania”. 

As contribuições de Ribeiro seguiram no sentido de fortalecer o processo de luta para efetivar o redutor de danos enquanto profissão e no reconhecimento de uma alternativa que respeita a liberdade das pessoas de uso ou não de drogas, considerando inclusive o método de abstinência, caso o/a usuário/a faça essa escolha. Ele lembrou ainda que na Bahia a RD chegou através das universidades, mas em nível nacional foi por meio de movimentos sociais. “Agora precisamos refletir como os redutores que estão na rua conseguem se inserir no mercado de trabalho. E fortalecer a convocação permanente pra se mobilizar pela redução de danos”. 

Gesse Oliveira compartilhou casos da sua atuação enquanto redutor e de como essa prática já conseguiu salvar vidas. Ele trouxe a reflexão da importância dessa profissão para a promoção de cuidado com pessoas. “Vocês que estão se formando agora tem uma responsabilidade grande com as pessoas que estão trabalhando. Fazemos RD a todo o momento. E na maioria das vezes, as pessoas que lidamos são as pessoas que estão nas ruas do Centro Histórico, de bairros como Itapuã e Barra, mas que para quem passa, não valem nada”, enfatizou ao questionar a invisibilidade sofrida pelos/as usuários/as em contexto de vulnerabilidade em Salvador. 

Segundo Gessé, para ser redutor de danos é preciso desconstruir estigmas. “Quando você vê alguém chamando outro de ‘sacizeiro’, fale que é uma pessoa usuária de crack. Pois precisamos refletir sobre a nossa fala. Todos são usuários de substâncias e precisamos estar atentos”. Sobre o discurso das guerras às drogas, Oliveira criticou a construção do tema na mídia: “Me mostre um cigarro de maconha com uma arma na mão, uma pedra de crack com arma na mão, um pino de cocaína com arma na mão”, disse no sentido de afirmar que as mortes e violências não são criadas pelo uso das drogas, mas pela criminalização do uso. Ele finalizou a fala pedindo que os novos cursistas se mantenham firmes a acreditar que outros caminhos são possíveis: “o sonho é bonito e muitas vezes acordar não vale a pena”. 

“Com a RD temos uma ferramenta para mudar a sociedade que é usuária de drogas, mas mudar a sociedade que não faz uso também, que é a que mais discrimina a gente, para assim mudar o mundo e termos uma vida melhor’, destacou Franklin de Faria Profeta, assistido do programa que acompanhava da platéia. Já Nicole Faria disse estar empolgada com a participação no curso. “Enquanto moradora de rua agradeço. Tenho boas expectativas”. E para Rogério Santa Rosa, também da nova turma, essa é uma oportunidade de auto cuidado e organização. “Todos estamos lutando pela nossa melhora e pela dos irmãos lá fora”.