01/06/2015
O isolamento em que vivem as 16 famílias indígenas da etnia Pankararé, na localidade da Baixa do Chico, município de Glória, chamou atenção dos visitantes que estiveram na pequena aldeia na última terça-feira (26). Uma missão do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com a Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), percorreu cerca de 60 km de estrada de terra e areia funda para chegar ao Raso da Catarina, a ecorregião mais quente e seca da Bahia. Na parte centro-leste da Caatinga, numa região semidesértica, 72 pessoas da etnia Pankararé vivem em meio a um grande vazio demográfico. Na estrada até a Baixa do Chico, a vegetação arbustiva resiste à areia fofa e anuncia a dificuldade para transportar alimentos até o local: um frete com carro traçado, único jeito de chegar à aldeia, custa, em média, R$ 200. “Não mudamos daqui por nada. Essa é nossa terra. Aqui sempre sobrevivemos, com sossego, sem ninguém pra alterar nossa tranqüilidade”, diz Milton da Silva Nascimento, 47.
Segundo ele, os Pankararés de lá gostam do isolamento, vivem da beleza dos cânios (que já foi cenário de novela), do silêncio do lugar e também de caça, criação de caprinos, feijão e milho (“quando dá”), além da cesta básica da FUNAI e dos benefícios do governo federal. A aldeia tem três cisternas do programa Água para Todos, um poço artesiano e energia solar na maioria das casas. A comunidade foi uma das selecionadas para participar do projeto sobre alimentação e nutrição infantil em municípios com povos indígenas na Bahia inscritos na iniciativa Selo Unicef Município Aprovado Edição 2013-2016. Segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI-BA/Sesai), os municípios de Banzaê e Glória reúnem seis etnias (Kiriri, Tuxá, Kru Kiriri, Pankararé, Kantaruré e Xukuru-Kiriri), distribuídas em 16 aldeias, e apresentam situação de maior agravo na alimentação infantil de zero a seis anos no semiárido baiano. O objetivo da atividade é fazer uma primeira escuta e identificar possíveis demandas das comunidades indígenas para projetos relativos à alimentação. O trabalho também integra o Pacto Um Mundo para a Criança e o Adolescente do Semiárido, coordenado pela SJDHDS, incluindo na articulação as secretarias estaduais de Saúde e Educação. Representando o secretário da SJDHDS, Geraldo Reis, Iara Farias, coordenadora do Pacto, sinalizou que “a mobilização das diversas secretarias reflete o empenho e compromisso do Governo do Estado com os povos indígenas, sobretudo as crianças, que são o público mais vulnerável, sendo a alimentação fator essencial para a formação e o desenvolvimento da vida. Este trabalho está aproximando e promovendo sinergias entre as diversas instituições parceiras, potencializando o benefício gerado para as comunidades”. Pankararés – Originários de um único grupamento, o povo Pankararé foi aldeado em seis diferentes localidades de Glória, entre elas Brejo do Burgo e Baixa do Chico, onde aconteceram duas reuniões com as mães, nutrizes, gestantes, crianças, lideranças e caciques, para tratarem de aleitamento materno, alimentação complementar e alimentação saudável. As equipes da DSEI-BA, com médico, dentista, enfermeira e agentes de saúde, integraram as atividades. A metodologia do trabalho estimulou a reflexão e o diálogo sobre a alimentação tradicional dos indígenas, alimentação saudável e as práticas do dia a dia, procurando respeitar a identidade cultural do povo. “Trazemos uma metodologia de trabalho que propõe a reflexão, para que eles decidam o que é melhor pra eles. O objetivo é a superação das fragilidades da dieta alimentar, com foco nas crianças de zero a seis anos. Isso pode ajudar a melhor definir cesta básica, merenda escolar e outras políticas voltadas para as populações indígenas”, afirmou Helena Oliveira, coordenadora do Unicef na Bahia. Também acompanhou a atividade o coordenador do Unicef para o Nordeste, o norte-americano Robert Gass, que frisou a importância dos parceiros para o desenvolvimento do trabalho do Fundo das Nações Unidas para a Infância. “O Unicef tem uma parceria muito forte com os governos. Na Bahia, sempre contamos com o governo do estado, parceria que será fortalecida ainda mais com a assinatura, muito em breve, da reafirmação do pacto de compromisso do governo Rui Costa com a agenda da infância. A Bahia sai na frente e deve ser o primeiro estado a assinar essa repactuação”, disse.
Alimentos tradicionais
No encontro da aldeia Pankararé de Brejo do Burgo, distante 30 km de Paulo Afonso, a situação parece mais tênue quanto ao isolamento, mas não menos delicada quanto à alimentação. Maria Vicentina Silva, 51, mais conhecida como cacica Senhora, uma das lideranças Pankararé, e o pajé Véio de Pifânio se lembraram dos alimentos tradicionais que estão deixando de ser utilizados na dieta local. “Raiz do imbu (umbu) com melado da cana; cabeça de frade (cacto); murici, araticum (fruta que pode comer fresca ou cozida, quando verde); xique-xique assado; fruta da palma; fruto do mandacaru; cuscuz de mucunã (olho de boi) que pode misturar com licuri, além da caça, que hoje quase não se tem e também está proibida”, disse Senhora.
A equipe identificou a introdução precoce dos alimentos para bebês em idade de amamentação exclusiva, além da valorização de alguns alimentos industrializados contendo açúcar, corantes e conservantes. Ao final da reflexão, as 50 mulheres presentes levantaram propostas de atividades que podem ajudá-las a melhorar a alimentação: oficina de receitas saudáveis, horta comunitária, curso sobre como utilizar os alimentos da região, alimentação adequada para combater diabetes e oficina sobre armazenamento e aproveitamento das safras foram algumas ideias. A segunda etapa do trabalho será de definição e atendimento às demandas apresentadas pela comunidade. Para a coordenadora de Políticas para os Povos Indígenas da SJDHDS, Ilclênia Tuxá, a maior riqueza deste trabalho foi a articulação e mobilização dos indígenas, que lembraram de sua cultura e puderam sentir o valor da união por um objetivo comum. O sentimento foi compartilhado pela Pankararé Cristiane Silva Xavier, 29 anos, mãe solteira de três filhos, sendo um bebê de seis meses: “hoje a gente aprendeu mais do que alimentação. Se não tivesse essa oficina, não estaria todo mundo aqui unido. O que mais gostei foi que ficamos todos juntos, unidos, conversando, e dançamos com os índios e os não índios“.
Fotos no Flickr. Ascom/ SJDHDS 71 3115-9882