Primeira ala para pessoas com deficiência em bloco afro e iniciativas de acessibilidade ampliam participação na festa, mas barreiras persistem
Lenidalva Silva, 57 anos, perdeu a visão há dez anos, mas nunca deixou de ser apaixonada pelo Carnaval de Salvador. Seu maior sonho é pular na pipoca do cantor Saulo Fernandes, mas a falta de estrutura nos circuitos ainda torna esse desejo um desafio. "No camarote acessível consigo aproveitar melhor a festa, mas meu maior problema é voltar para casa. Dependo do transporte público e não me sinto segura para ficar até tarde", conta.
A experiência de Ana Lúcia Santos, 62 anos, que leva o filho cadeirante para curtir a folia em família, também reflete as dificuldades que ainda existem para foliões/ãs com deficiência. "Ao identificar meu filho como pessoa com deficiência na entrada, conseguimos acesso prioritário, mas ainda lidamos com a falta de rampas e a escassez de banheiros químicos adaptados e falta de sinalização", destaca.
O relato das foliãs foi feito aos mobilizadores do Plantão Integrado dos Direitos Humanos, coordenado pela Superintendência dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SUDEF), que atuou em diversas frentes para garantir a inclusão e o respeito aos direitos dos foliões/ãs com deficiência. As equipes realizaram mobilização nos circuitos, abordagens sociais, distribuição de pulseiras de identificação para pessoas surdas e fiscalização das condições de acessibilidade. Além disso, o Plantão contou com uma central de atendimento presencial e online em Libras, ampliando o suporte à pessoas com deficiência auditiva e surdos, e realizou acolhimento e encaminhamento de denúncias.
Ao longo da festa, foram distribuídas pulseiras de identificação para pessoas com surdez, facilitando o acesso a serviços e garantindo mais segurança aos foliões. A fiscalização também identificou 14 casos de condições de trabalho irregular, evidenciando a necessidade de fortalecer políticas de garantia de direitos à esses profissionais. Nesse contexto, a situação dos 13 barraqueiros permissionários em Ondina foi analisada, recebendo tratativas prioritárias para garantir direitos básicos dos trabalhadores. A situação evidencia os desafios na regularização e na oferta de condições adequadas de trabalho.
Para o superintendente da SUDEF, Marcelo Zig, os dados coletados demonstram tanto os avanços quanto as lacunas que ainda precisam ser enfrentadas: "Os números mostram que há avanços importantes na acessibilidade do Carnaval, mas também revelam que ainda temos muito trabalho pela frente. Não basta apenas garantir espaços exclusivos para pessoas com deficiência, é preciso que toda a estrutura da festa esteja preparada para recebê-las com segurança e dignidade", enfatizou.
Inclusão histórica no Carnaval de Salvador
Este ano, além de opções já conhecidas de inclusão no Carnaval, como o Camarote Acessível da Prefeitura e o tradicional bloco Me Deixe à Vontade, da Associação Baiana de Deficientes Físicos (ABDEF), a festa deu continuidade a uma ação histórica, com o desfile pelo segundo ano consecutivo, da primeira ala de pessoas com deficiência em um bloco afro.
A iniciativa foi possível graças à parceria entre o Bloco Malê Debalê e o coletivo Quilombo PCD, liderado pelo filósofo, ativista e músico Marcelo Zig.
Zig também esteve à frente de outra ação importante: o Bloquinho da SJDH, puxado pelo AfroDef e a Cadeira de Som, na tradicional Mudança do Garcia, reconhecida por seu caráter político dentro da festa. Este foi o primeiro ano da iniciativa. Além de artista e ativista, Marcelo é superintendente da SUDEF e destacou a importância de iniciativas como esta: "Ações como essas são de total interesse da superintendência, porque queremos que as pessoas com deficiência participem em todas as categorias possíveis do Carnaval e ocupem todos os espaços dessa festa", afirmou.
Plantão Integrado dos Direitos Humanos: prevenção e acolhimento
O Plantão Integrado dos Direitos Humanos é uma iniciativa voltada para prevenir e combater violações de direitos em festas populares da Bahia. Além do atendimento a pessoas com deficiência, o Plantão também atua no enfrentamento à violência de gênero, ao racismo e à exploração infantil durante a folia.
Locais de atendimento do Plantão Integrado:
Posto da Barra – Atendimento presencial para escuta e encaminhamentos;
Posto do PROCON – Para fiscalização de serviços e atendimento de denúncias.
Centrais de atendimento:
Disque Direitos Humanos: 100
Ouvidoria: (71) 98249-6016