09/09/2016
O evento é uma iniciativa da SJDHDS, em parceria com um conjunto de organizações e instituições públicas e privadas, e antecede a 15ª Parada do Orgulho LGBT, marcada para o próximo domingo (11), no Campo Grande.
Uma roda de diálogo tendo como temática “Da contracultura à geração tombamento: festa, politica e identidade” aconteceu nesta noite de quinta-feira (08), em Salvador, levando ao Passeio Público dezenas de pessoas LGBTs e simpatizantes à área externa do Teatro Vila Velha. O evento faz parte da programação da II Semana Fora do Armário, uma iniciativa do Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), em parceria com um conjunto de organizações e instituições públicas e privadas, que antecede a 15ª Parada do Orgulho LGBT, marcada para o próximo domingo (11), no Campo Grande.
Para palestrar na Roda, foram convidados o antropólogo e professor da Ufba, Edward MacRae, e os integrantes dos coletivos Tombo, Afrobapho e Pragatecno, Thátila Martins, Alan Costa, Maurício Sachamnto e Adriana Prates, respectivamente.
Segundo o coordenador de Políticas LGBT, Vinícius Alves, o objetivo da Semana Fora do Armário é criar uma mobilização social para a Parada, uma das principais atividades de Direitos Humanos e de visibilidade institucional de caráter anual, voltadas para uma população estratégica. "Nós fomos provocados pelos coletivos a criar um espaço de discussão sobre algumas questões, uma delas a Geração Tombamento que é o reconhecimento do uso da festividade como uma forma de organização e luta por cidadania", conta Vinícius.
Contracultura - Abriu a Roda de Diálogos, o antropólogo Edward MacRae, que falou sobre a contracultura na década de 70 e como atitudes que chocavam naquela época, hoje já são consideradas normais. Também definiu a contracultura como uma resistência natural à ditadura na época, e não deixou de fazer um paralelo com o momento político atual, citando um livro editado nos anos 80, intitulado Hegemonia do Cinismo, “que retrata fielmente o que estamos vivendo”, insinuou.

MacRae contou que entre as décadas de 60 e 70 tudo era proibido, pessoas morriam ou eram exiladas e quem ficou no país estava insatisfeito, não podia se organizar, a própria organização política foi colocada em questão, assim como o modelo stalinista de esquerda, e a insatisfação maior era com o modelo de direita existente.
"Aí que chega a importância dos valores da contracultura que vieram nesse período dos Estados Unidos e da Europa, para o Rio, São Paulo e Bahia, mas era ainda coisa de um pequeno grupo. Um dos momentos-chaves é a atuação de Caetano Veloso, quando faz um show vestido de baiana, depois de voltar do exílio em Londres. As pessoas o chamavam de alienado, mas ele aí já estava trazendo esse questionamento dos papéis de gênero muito importante", salienta.
"Outras pessoas, que voltavam com a anistia, trouxeram novidades que ocorriam nos países desenvolvidos, como a ideia de que o privado é político, a forma como você se dá com seu companheiro ou companheira é algo político, assim como uma luta numa fábrica", afirmou. Segundo o antropólogo, houve um significativo avanço, com a luta no campo dos costumes e o reconhecimento por parte do Estado, da importância da discussão junto aos movimentos e sociedade.
Racismo - Com o criador do Afrobapho, Alan Santos, o assunto girou sobre a questão racial, como o corpo negro foi historicamente tratado, desde o processo de escravização até os dias atuais, sofrendo diversas ressignificações ao longo do tempo, começando por ser considerado não humano, inferior e, atualmente enquadrado na figura da hipersexualização e outros padrões impostos.

"O Afrobapho foi criado para trazer esse debate para dentro do movimento LGBT, a gente também quer visibilidade, se sentir representado, ajudar a construir e levar para um patamar bem maior que já está. Todo esse histórico do corpo negro social também atinge o corpo negro LGBT. Sou homem, negro, gay e afeminado, e quero transitar livremente por todos os lugares. Não quero estar estereotipado, não gosto do lugar comum!" frisou.
Música Eletrônica - A cientista social, integrante do Pragatecno, Adriana Prates, contou a história do coletivo e como ele interferiu na vida cultural da cidade, falou das questões relacionadas à identidade, questão do gênero, da sexualidade e sobre a importância da cultura para a formação da identidade. O Pragatecno tem mais de 15 anos no Brasil (Norte e Nordeste) e foi pioneiro em Salvador, ajudando a criar um circuito de música eletrônica, com realização de festas, oficinas, discussões na internet e outras iniciativas.

"A gente tem pessoas de todas as identidades no nosso coletivo. Começamos querendo escutar a música que a gente gostava e estar entre pessoas afins. Na verdade a nossa cena era muito fundada na música mesmo. Queríamos escutar essa música, que as pessoas estivessem com a gente e que, naquele momento, pudéssemos ser livres para expressar como podíamos, o que aglutinou vários gêneros" concluiu.
Outra Roda - Nesta sexta-feira (09), o assunto da Roda de Diálogo será "Estado laico: riscos e perspectivas da luta democrática contemporânea", no Tropos CO, no Rio Vermelho. Participarão Joana Zylbersztain, doutora em Direito pela USP, Vilma Reis, socióloga e ouvidora da Defensoria Pública do Estado e Anhamona de Brito, superintendente de Apoio e Defesa dos Direitos Humanos, da SJDHDS.