15/03/2016
“O Brasil convive com a desigualdade. Mas não só isso. O Brasil se acostumou, se habituou à desigualdade. E mais do que isso, o Brasil se viciou na desigualdade”. A frase do pesquisador e professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB) Mário Theodoro, durante o debate do Eixo Promoção e Consolidação da Igualdade, na tarde de ontem (14), durante a IV Conferência Estadual de Direitos Humanos, em Salvador, ganhou a atenção da plateia.
Ao lado do cacique Babau, Tupinambá da aldeia da Serra do Padeiro, no sul do estado, e da historiadora e membro do Fórum Nacional de Mulheres Negras, Gilcélia Cruz, o pesquisador traçou um histórico da questão da desigualdade no país. “Nós somos naturalmente diversos e somos historicamente desiguais. A nossa desigualdade tem raiz no nosso passado histórico de escravidão. As pessoas já aportavam aqui ou como livres ou como escravos. Você já tinha uma clivagem social colocada lá na história. E o grande desafio nosso é conseguir a igualdade na diversidade”, disse.
Segundo o economista e pesquisador, “toda a estrutura social brasileira hoje está plotada sobre a perspectiva da desigualdade. Por exemplo, uma família de classe media hoje só funciona porque tem uma empregada doméstica. Em outros países, quando a mulher foi trabalhar fora, nas décadas de 40 e 50, na Europa, nos Estados Unidos, o estado social dava creche, dava uma série de serviços para que a família pudesse funcionar com as mulheres trabalhando. No Brasil, as mulheres da classe média foram trabalhar nas décadas de 60 e 70 porque tiveram uma empregada doméstica para cuidar da casa”.
Para o professor, “o país se habituou tanto à desigualdade, que as instituições brasileiras estão montadas e sustentadas na desigualdade”. Como exemplos, citou: “escola, tem a pública para os pobres e a particular para os ricos; universidades públicas para os ricos e universidades privadas paro os pobres; na saúde, SUS para os pobres e plano de saúde para os ricos; elevador social e de serviço, isso só existe no Brasil! E prisão, quem tem nível superior tem uma prisão diferente. Então, a nossa sociedade está institucionalmente montada encima da desigualdade, como se fossem duas sociedades, uma para os pobres e outras para os ricos. Quando um sujeito que é da turma da escola pública, do SUS ou do elevador de serviço entra num avião, ele sofre estranhamento do resto da sociedade”.
Experiência indígena – O cacique Babau (Rosivaldo Ferreira da Silva), liderança Tupinambá reconhecida em todo o Brasil por sua luta pela defesa dos povos tradicionais e pelo exemplo que é a organização social na aldeia da Serra do Padeiro, onde vive, falou sobre a percepção que os índios têm sobre a sociedade brasileira. “Quando a gente viu o fazendeiro tratar seus funcionários, parecia que ele era humano e o outro era um animal domesticado e tinha que obedecê-lo. Isso é estranho: porque eu estou pagando, eu estou mandando, e o outro tem que cumprir sem questionar só porque está vendendo sua força de trabalho?”, questionou.
O indígena citou ainda a falta de espaço para a criança e o jovem se manifestarem em nossa sociedade: “as crianças, na aldeia da gente, em qualquer reunião, elas são ouvidas, se elas querem falar, a gente deixa. Porque a gente acredita que as verdadeiras mensagens podem vir de onde a gente menos espera”. O cacique citou ainda questões como homosexualidade, racismo, preconceito com relação a pessoas com deficiência, dentre outras. “Para Tupinambá, se um não tem as pernas, quem tem o carrega. Se um não tem a voz, o que tem fala. Se um não tem a visão, o outro veja”, disse, revelando a forma de natural de convivência solidária em sua aldeia.
Sobre racismo, a historiadora e membro do Fórum Nacional de Mulheres Negras, Gilcélia Cruz, reforçou que a questão racial está no pano de fundo da questão de classes no Brasil. “Sabemos que o homem branco ganha mais do que a mulher branca, a mulher branca ganha mais do que o homem negro, o homem negro ganha mais do que a mulher negra, então nós mulheres negras estamos na base da pirâmide, e ainda tem outros recortes, como a questão LGBT, deficiência etc. Se for uma mulher negra e gorda complica ainda mais”.