A união entre dança e capoeira, além de homenagens aos sons dos atabaques do candomblé, marcaram o desfile do Afoxé Dança Bahia, grupo com mais de 40 anos de história e um dos primeiros a ocupar o Circuito Osmar (Campo Grande) nesta quinta-feira (12).
O cortejo saiu no contrafluxo, com concentração na Praça Municipal e saída na Praça Castro Alves, integrando a programação apoiada pelo Programa Ouro Negro, iniciativa do Governo do Estado que garante a participação de 95 entidades de matriz africana nos principais circuitos do Carnaval de Salvador.
Fundado em 19 de abril de 1984 pelo mestre de capoeira e professor de dança Mestre Macumba, o Afoxé Dança Bahia apresentou neste ano o tema “Rum pi lé Gan”. O lema do Carnaval 2026 do Afoxé reúne os nomes dos três atabaques sagrados (“Rum”, “Rumpi” e “Lé”) utilizados nos rituais de candomblé e umbanda, além do “Gan”, também conhecido como agogô, instrumento fundamental para a condução rítmica e a organização das cerimônias religiosas.
“Nossos temas costumam homenagear orixás, mas este ano resolvemos celebrar os atabaques, porque eles são nossos maestros, conduzem tudo. Sem os atabaques não há dança, não há nada”, afirma Mestre Macumba, que esteve à frente das cerca de 450 pessoas que participaram do desfile.
Capoeira e juventude - Entre os integrantes do desfile estava Gustavo Pereira, 38 anos, professor de capoeira que levou crianças e jovens do grupo Olope, do bairro de São Marcos, em Salvador. Conhecido nas rodas como professor Porquinho, ele explica que o vínculo com o Afoxé Dança Bahia surgiu porque Mestre Macumba também é mestre de capoeira do grupo, o que motivou o convite para integrar o cortejo.
Com 26 anos de atuação nas rodas de capoeira, Gustavo destaca que a presença da capoeira no desfile contribui para apresentar aos jovens a importância de preservar tanto o legado do afoxé quanto o da própria capoeira.
“Estamos em um bairro onde muitos meninos de 12, 13 anos acabam seguindo caminhos errados, e o nosso projeto mostra outras possibilidades. A capoeira amplia horizontes. É contagiante vê-los aqui, nessa mistura de ancestralidade, dança, samba e carnaval, com a capoeira também ocupando esse espaço. Nosso sangue ferve com tudo isso junto”, afirma o professor.
Programa Ouro Negro - O Afoxé Dança Bahia surgiu no Pelourinho inicialmente como grupo de dança e, desde 2003, consolidou-se como afoxé, participando praticamente de todas as edições do Carnaval desde então. Mestre Macumba destaca que, desde a criação do Programa Ouro Negro, em 2008, o apoio do Governo da Bahia tem sido decisivo para garantir a presença do grupo na festa.
“Sempre contamos com o Ouro Negro para viabilizar nosso Carnaval. Antes, tudo era muito difícil, vivíamos pedindo ajuda para conseguir colocar o Afoxé na rua. Ter um projeto como esse nos dá segurança para manter a tradição e assegurar que estaremos presentes a cada ano”, ressalta.
Com investimento recorde de R$ 17 milhões, o Programa Ouro Negro 2026 assegura a participação de 95 entidades de matriz africana nos principais circuitos do Carnaval de Salvador, fortalecendo blocos afros, afoxés, sambas, grupos de capoeira e outras manifestações que fazem da festa baiana uma referência mundial. A iniciativa integra as ações do Carnaval da Bahia: Um Estado de Alegria, reafirmando o protagonismo das tradições negras na maior festa popular do país.