O Campo Grande foi tomado por cores, ritmos e espiritualidade, na noite desta quinta-feira (12), com o primeiro desfile do Bloco Afro Bankoma no Carnaval 2026. Sob o tema “Etu Ana Ya Mukongo – Somos Filhos do Caçador Gongobira Mutalanbô”, o bloco homenageia o nkisi Mutalambô (Oxóssi na nação ketu), rei da fartura, — divindade que representa a flecha certeira, a força das matas e a prosperidade celebrada pelas nações de candomblé.
Na avenida, o Bankoma transformou o circuito em território de celebração ancestral. Adereços e detalhes costurados a várias mãos refletiam o cuidado coletivo de uma comunidade que constrói o Carnaval ao longo de todo o ano. A percussão ecoava como um chamado às origens, enquanto as danças desenhavam no asfalto a força do povo bantu. Foi um desfile de beleza vibrante, estética cuidadosamente elaborada e energia contagiante que atravessava todo o cortejo.
“O Bankoma é uma mostra de tudo aquilo que a gente faz durante o ano, da percussão à costura. Este é o momento do protagonismo de todas essas pessoas. São corpos que dançam e pessoas que trabalham juntas. Essa energia retorna para todos em amor e alegria”, afirma mameto Kamurici, liderança religiosa do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, em Portão, Lauro de Freitas — casa de origem bantu que mantém viva a tradição do bloco ao associar fé, ativismo cultural e ação social.
Em 2026, o bloco desfila cinco dias, reafirmando a energia da fartura evocada pelo nkisi homenageado. A programação inclui apresentações em Salvador e Lauro de Freitas. Segundo Ápio Vinagre, integrante da coordenação, o Bankoma reúne entre 3 mil e 3.500 associados — homens e mulheres de candomblé, pessoas de quilombos, comunidades indígenas e integrantes de terreiros de Salvador, Lauro de Freitas e adjacências.
“São pessoas que, provavelmente, se não fosse o Bankoma e os blocos afros, estariam de fora das cordas. É um compromisso que temos desde 2000: fazer com que o Carnaval seja sinônimo de igualdade e equidade. Que possamos ter Carnaval para todo o povo”, destaca Ápio.
Entre o público, a emoção também marcou presença. Isabela Cristina, 34 anos, consultora de vendas e mãe de Reilane Cristina, acompanhou o desfile com orgulho. Ex-dançarina do Bankoma, ela celebrou a trajetória da filha, atual rainha do bloco, na avenida. “Está sendo muito emocionante viver esse momento”, disse.
A ialorixá Mãe Jaciara, do Terreiro Axé Abassá de Ogum, também prestigiou o desfile e ressaltou a importância do bloco na avenida. “O Bankoma vem para a avenida e deixa o sagrado no segredo”, afirmou, destacando que o bloco reafirma, a cada desfile, a força da ancestralidade sem abrir mão dos fundamentos religiosos.