Fundado em 1992 e presente no Carnaval de Salvador como bloco independente desde 2002, o Bloco Afro Jogo de Ifá desfilou nesta sexta-feira, 13 de janeiro, saindo em contrafluxo da Praça Municipal, no Centro Histórico, com o tema “Egito Nordestino”. A proposta uniu referências à realeza egípcia, ao ouro e à força simbólica da cor amarela e à identidade cultural do Nordeste, em um cortejo marcado por brilho, dança e afirmação da ancestralidade negra.
Com alas de dança e de baianas, o bloco apresentou figurinos inspirados na estética do Egito antigo, reinterpretada a partir da cultura afro-brasileira. O dourado intenso, os tecidos luminosos e os adereços que remetiam à nobreza africana transformaram o Centro Histórico em passarela de realeza negra. A ala de dança seguiu o ritmo da percussão e da ala de sopro, conduzindo o cortejo com coreografias sincronizadas que reforçaram o protagonismo do corpo como território de memória e resistência.
Presidente do bloco, Valter José destacou a persistência do projeto ao longo das décadas. “A gente mantém, todo ano está saindo, mas é muito difícil. Esse ano viemos com o tema Egito Nordestino, imaginando o nordestino, o ouro, a cor amarela, a realeza do Egito”, afirmou.
Segundo ele, o Jogo de Ifá atua principalmente com aulas de dança e formação cultural, reunindo atualmente mais de 400 dançarinos. “Infelizmente, nos bairros a gente não consegue trabalhar com fins lucrativos, não vendemos fantasia. Então o bloco se estrutura a partir das aulas. É um trabalho maravilhoso que a gente mantém todo ano, sempre com um tema diferenciado”, explicou.
Para a rainha do bloco, Larissa Oliveira, 25 anos, o tema exigiu estudo e aprofundamento histórico. Segundo ela, o processo começou com pesquisa e reflexão sobre o significado do que seria apresentado na avenida. “Quando Walter me chamou, pediu para pesquisar e entender o que estávamos trazendo. Tudo que a gente faz, a gente precisa compreender. Quando se fala em Egito, muitas vezes a gente pensa apenas em um lugar seco, com camelos. Eu mesma pensava assim”, relatou.
A partir do estudo, a percepção mudou. “Falar de Egito é lembrar da liderança e do reinado negro que existiu ali e que muitas vezes é apagado. A gente esquece da cultura negra que vem daquele lugar, da riqueza negra que existia ali. Estar aqui hoje, representando isso, é extremamente importante”, destacou Larissa.
O vínculo comunitário também é uma das marcas do Jogo de Ifá. As camisas são distribuídas entre familiares e apoiadores, e o público que acompanha o desfile participa ativamente da construção do cortejo, fortalecendo a rede de apoio que sustenta o bloco há mais de três décadas.
Integrante da ala das baianas e também da Associação de Baianas de Acarajé, Laiane Alves, 37 anos, participa há três anos do bloco. “É um bloco que traz harmonia e irmandade. Todo mundo é muito unido”, afirmou.
O dançarino Beijamim Pietro, 18 anos, também há três anos no Jogo de Ifá, destacou a evolução artística do desfile. “Esse ano o tema foi bem mais elaborado do que o ano passado. Acho interessante porque tira as pessoas das redes sociais e faz com que elas interajam na rua”, disse.