Carta de compromissos para o futuro das bibliotecas

Publicado: 28/10/2026 Última atualização: 28/10/2026 às 17:30

Pensar o futuro das bibliotecas, dos espaços de leitura e da informação é, antes de tudo, pensar o futuro das próprias relações humanas com o conhecimento. Em um contexto marcado por rápidas transformações tecnológicas, pela multiplicidade de linguagens e pelo excesso de informações, esses espaços deixam de ser apenas locais de acesso e passam a assumir, cada vez mais, o papel de mediação, formação e construção de sentidos. 

O desafio que se coloca não é apenas modernizar estruturas, mas reafirmar a relevância social das bibliotecas e espaços de leitura como ambientes vivos, capazes de dialogar com diferentes públicos, realidades e necessidades. Nesse cenário, esses ambientes são convocados a se reinventar sem perder sua essência. Isso implica ampliar o acesso, acolher a diversidade, fortalecer vínculos comunitários e promover práticas que estimulem o pensamento crítico e a autonomia dos sujeitos. Exige também reconhecer que a informação circula em múltiplos formatos e plataformas, demandando novas formas de organização, curadoria e mediação. 

Mais do que nunca, esses ambientes precisam ser compreendidos como territórios de convivência, cultura e cidadania, onde a leitura se manifesta de maneiras diversas e onde o conhecimento é construído de forma compartilhada. Projetar o futuro das bibliotecas é, portanto, assumir um compromisso com a inclusão, com a democratização do saber e com a construção de uma sociedade mais justa, informada e participativa.

A escuta neste evento revela uma percepção convergente: as bibliotecas públicas, Comunitárias e espaços de leitura no Estado da Bahia ainda enfrentam muitos desafios, e por isso, as contribuições desenvolvidas por meio dos diálogos traçados nesses últimos dias evidenciam que se faz a necessário:

  • Dar continuidade às políticas públicas voltadas às bibliotecas públicas, bibliotecas comunitárias e espaços de leitura, considerando suas diferentes demandas territoriais e sociais;
  • Garantir a continuidade de encontros como este, promovendo o diálogo entre os campos da memória, literatura, arquivos e bibliotecas, em favor da democratização do conhecimento;
  • Assegurar que o Curso de Auxiliares e o Encontro de Bibliotecas Públicas, Comunitárias e Espaços de Leitura também possam ocorrer mesmo que parcialmente em formato presencial, proporcionando uma experiência mais completa e colaborativa em eventos como estes;
  • Fomentar o aprofundamento crítico em três eixos: uso de tecnologias, pautas sociais identitárias e sustentabilidade.
  • Reconhecer que toda biblioteca e espaço de leitura devem acolher todas as pessoas, sem barreiras arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais, reafirmando a acessibilidade como princípio e direito de todos.
  • Aprofundar os debates sobre o uso de tecnologias, inclusão digital, sustentabilidade e pautas sociais e identitárias; 
  • Fomentar a instituição do dia da Biblioteca Comunitária;
  • Qualificar os profissionais de bibliotecas para a inclusão digital, por meio de formação continuada;
  • Realizar a ampliação do número de visitas técnicas territoriais, garantindo maior capilaridade e escuta às demandas locais;
  • Expandir os editais voltados às bibliotecas comunitárias e municipais, assegurando maior alcance territorial e diversidade de propostas;
  • Fortalecer as políticas de ampliação e doação de acervos atualizados e representativos;
  • Ofertar capacitações permanentes sobre elaboração e participação em editais públicos;
  • Fomentar editais financiados pelo Governo do Estado destinados à aquisição de materiais bibliográficos e multimeios para bibliotecas;
  • Continuar com a proposta de selo de reconhecimento das bibliotecas que executem boas práticas;
  • Ampliar a oferta de cursos técnicos em Biblioteconomia, formando profissionais qualificados para atuar em bibliotecas e espaços de leitura.
  • Fortalecer a Biblioteca de Extensão com expansão de número de bibliotecas móveis para atendimento aos municípios baianos;
  • Ampliar o diálogo da FPC com o Ministério da Cultura para retomada de editais de modernização, implantação e fortalecimento de bibliotecas;
  • Desenvolver campanha institucional para fortalecer e ampliar a adesão dos municípios à Rede FPC, com foco nos gestores municipais.
  • Ampliação dos trabalhos com as bibliotecas prisionais, reconhecendo seu papel na garantia de direitos e na ressocialização;
  • Estimular políticas de preservação da memória local e valorização das identidades culturais dos territórios baianos por meio das bibliotecas e espaços de leitura.

     

Essas reflexões são convicção das bibliotecas como equipamento cultural que deve ser amparado por uma política de Estado que lhe assegure continuidade institucional, lastro normativo e responsabilidade compartilhada. 

Nesse sentido, o Marco Legal deve prever financiamento público estável e contínuo, com dotação orçamentária específica para manutenção, modernização, desenvolvimento de coleções, preservação, ações culturais e atualização tecnológica. A ausência de recursos permanentes compromete a qualidade dos serviços e fragiliza o papel social das bibliotecas. Deve também assegurar equipe qualificada, com presença obrigatória de bibliotecário(a) responsável, em conformidade com a legislação profissional, além de condições para composição de equipes interdisciplinares sempre que necessário. A defesa de profissionais habilitados é contundente nas respostas, associada à valorização do trabalho bibliotecário e à garantia de atendimento público de qualidade.

É igualmente necessário estabelecer parâmetros mínimos nacionais de funcionamento, contemplando infraestrutura física adequada, acessibilidade, mobiliário, conectividade, equipamentos, acervos atualizados e representativos, serviços de mediação, ações de incentivo à leitura, preservação da memória e horários compatíveis com as necessidades das comunidades. Sem esses parâmetros, o direito à biblioteca pública permanece desigual e vulnerável às disparidades regionais e administrativas.

Esta Carta da FPC para o futuro das bibliotecas é um compromisso efetivo com a biblioteca pública, comunitárias e espaços de leitura, é um compromisso pela defesa de  sua existência material é indispensável pela defesa da visibilidade desses espaços.

Essa carta expressa com clareza e responsabilidade, a voz de quem atua nas bibliotecas, conhece seus desafios e insiste em afirmar seu valor público. E que, a partir desse encontro, possamos fortalecer uma agenda em que as bibliotecas públicas, comunitárias e espaços de leitura sejam definitivamente reconhecidas como política de Estado, com financiamento, equipe qualificada, infraestrutura adequada, mecanismos de avaliação e compromisso permanente com o direito à leitura, à informação, à memória.