Escrevemos esta carta para ser lida daqui a 40 anos, como testemunho de um tempo em que a preservação da memória ainda exige compromisso, resistência e construção coletiva.
Desejamos que, no futuro, os arquivos públicos sejam plenamente reconhecidos como instituições essenciais à democracia, aos direitos humanos, à cidadania e à identidade de nosso povo. Que não sejam vistos como depósitos de documentos antigos, mas como espaços vivos de memória, prova, pertencimento, reparação e acesso à informação.
Esperamos que os acervos públicos do Brasil estejam digitalizados, descritos, preservados e amplamente disponibilizados para a sociedade. Que a digitalização tenha sido compreendida não apenas como reprodução de imagens, mas como parte de uma política arquivística ampla, acompanhada de gestão documental eficiente, preservação digital, formação de equipes e compromisso permanente com o acesso público.
Desejamos que os arquivos públicos ocupem o protagonismo que lhes cabe nas políticas de Estado, na educação, na cultura, na pesquisa e na administração pública. Valorizar os arquivos é valorizar a história, a identidade e os direitos de cada cidadão. É reconhecer que não há futuro democrático sem memória preservada, organizada e acessível.
Também sonhamos com o fortalecimento de tecnologias brasileiras voltadas aos arquivos públicos, como o Farinha, software desenvolvido a partir das realidades do Brasil e do Sul Global. Que a Fundação Pedro Calmon e as instituições arquivísticas tenham contribuído para consolidar soluções tecnológicas soberanas, acessíveis, colaborativas e adequadas às necessidades dos nossos territórios.
Da Bahia, nosso desejo é ainda mais concreto: que os 417 municípios baianos tenham seus arquivos públicos implantados, estruturados e atuantes. Que cada município possa preservar sua história administrativa, social, cultural e comunitária. Que nenhuma cidade seja privada de sua memória e que a gestão documental seja reconhecida como base da transparência, da boa administração pública e do direito de acesso à informação.
Esperamos, ainda, que os documentos físicos continuem preservados com cuidado, técnica e respeito. Mesmo em um mundo cada vez mais digital, os suportes originais permanecem como testemunhos materiais da nossa trajetória e precisam atravessar o tempo com dignidade.
Se esta carta chegou até vocês, é porque algo resistiu: os documentos, as instituições, os profissionais da memória e a esperança. Que a Fundação Pedro Calmon siga cuidando, ampliando e honrando esse legado, fortalecendo os arquivos públicos como instrumentos de cidadania, justiça, identidade e futuro.
Com responsabilidade e esperança,
Nós, do passado.