Sem floresta, não há fauna: a relação que sustenta a vida silvestre

20/03/2026
Soltura de animais - por Matheus Lemos - Sema-Inema.jpg
Matheus Lemos - Ascom Sema/Inema

"Manter a floresta de pé é, também, garantir a sobrevivência da fauna". A afirmação resume uma relação essencial da natureza, a dependência direta entre a vegetação nativa e a vida silvestre. É nas florestas que milhares de espécies encontram alimento, abrigo e condições para se reproduzir, e é a própria fauna que ajuda a manter esses ecossistemas vivos.

Em meio à vegetação, cada detalhe importa. A altura das árvores, a presença de água por perto, se há alimento suficiente, se existe abrigo, ou se a presença humana é baixa. Mais do que a natureza ao redor, o que se busca é um espaço onde a vida possa, de fato, recomeçar. Para um animal que passou por resgate, cuidados clínicos e reabilitação, retornar à natureza depende diretamente da qualidade do habitat, e é justamente nesse ponto que as florestas cumprem um papel insubstituível.

Celebrado em 21 de março, o Dia Internacional das Florestas reforça essa conexão essencial entre vegetação e vida silvestre. Mais do que paisagens, as florestas são estruturas vivas que sustentam cadeias ecológicas inteiras, oferecendo alimento, abrigo e condições para a reprodução de milhares de espécies. A bióloga Marianna Pinho explica que se trata de uma relação de troca.

“Além de a fauna encontrar na floresta um habitat seguro, ela também presta serviços ambientais para a própria conservação da vegetação. Uma depende da outra, já que a fauna silvestre é responsável pela polinização, pela dispersão de sementes e pela renovação da floresta. Manter a floresta de pé é, também, garantir a sobrevivência da fauna”, afirmou a bióloga.

Ela acrescenta que, quando essas áreas são degradadas ou fragmentadas, os impactos são imediatos. “Os animais vão em busca de outras áreas, mas esses locais já estão ocupados, o que aumenta a competição por recursos naturais. Além disso, a fragmentação isola os animais em pequenos trechos de mata, comprometendo a variabilidade genética, essencial para a manutenção das espécies”, explica Marianna.

Na Bahia, parte desse ciclo de cuidado com a fauna passa pelo trabalho do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), onde animais resgatados são avaliados, tratados e preparados para retornar ao ambiente natural. Mas a soltura só acontece quando há um destino adequado, e isso exige um mapeamento criterioso de áreas capazes de acolher esses indivíduos.

Hoje, o estado possui 41 Áreas de Soltura de Animais Silvestres (ASAs) cadastradas no órgão ambiental. Distribuídas em diferentes regiões e biomas, com monitoramento contínuo, essas áreas são previamente analisadas por técnicos que consideram fatores como tipo de vegetação, disponibilidade de alimento, presença de predadores e pressão humana. A ideia é simples, mas desafiadora: garantir que o animal tenha uma segunda chance real de viver em liberdade.

No entanto, esse retorno à floresta pode não se sustentar se os animais também não estiverem aptos. A médica veterinária e gestora do Cetas explica que “eles precisam estar completamente livres de doenças, com boa condição física e com todas as suas funções preservadas, como voo, locomoção ou natação. Cada decisão precisa considerar o equilíbrio do ecossistema como um todo, garantindo que esse retorno à natureza aconteça de forma segura e sem causar impactos ambientais”, destaca Marta.

Por fim, as especialistas apontam que a ausência de vegetação adequada compromete não apenas a sobrevivência individual da fauna, mas o equilíbrio de todo o ecossistema. Somado a isso, cada espécie tem um papel a cumprir, seja na dispersão de sementes, no controle de populações ou na manutenção das cadeias alimentares. Se ambos não estão prontos, não há troca saudável.


O papel do Estado no combate a crimes florestais

Esse cenário de conexão entre vegetação e vida silvestre também passa pelo enfrentamento a práticas ilegais que impactam diretamente as florestas e, consequentemente, a fauna. Nos últimos anos, a atuação de fiscalização ambiental do Inema tem identificado ocorrências relacionadas à supressão irregular de vegetação, exploração ilegal de madeira e uso inadequado de recursos naturais.

Somente em 2025, foram realizadas 12 operações de fiscalização voltadas à proteção da vegetação nativa no estado, incluindo ações como Mata do Guará I e II (Cerrado), Mata Branca I e II (Caatinga), Mata Atlântica em Pé e TCSA Sul I e II (Mata Atlântica), além das operações Ronda Verde I e II, voltadas à apuração de perdas de vegetação relacionadas a incêndios florestais. As ações também envolveram Unidades de Conservação (UC), como a operação Parna/Flona, e a participação nas etapas 51 e 52 da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI).

Ao todo, essas iniciativas resultaram em 240 desdobramentos, com 62 interdições de atividades relacionadas à supressão irregular da vegetação nativa. Para 2026, novas ações já estão em fase de planejamento e execução, como a Operação Mata do Guará I. Essas ações são fundamentais para conter a degradação ambiental e evitar a perda de habitats naturais, condição essencial para a sobrevivência da fauna silvestre.


Investimentos em restauração florestal

Mais do que conter danos, o Estado também vem fortalecendo iniciativas voltadas à recomposição florestal, com foco na produção de mudas nativas e na recuperação de áreas degradadas. O objetivo é restabelecer ecossistemas e criar novamente condições adequadas para a fauna, garantindo ambientes capazes de sustentar a vida silvestre.

Entre as principais iniciativas coordenadas pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema), estão os fomentos às organizações da sociedade civil, com edital lançado em 2025 para recomposição florestal no Cerrado e previsão de novo edital para o Semiárido em 2026, com investimento de R$ 3,75 milhões. Outro destaque é o programa Replantar, que prevê edital de R$ 3,5 milhões para implantação de viveiros educadores de mudas nativas nos três biomas do estado. A Sema também atua em ações como o recaatingamento na Bacia do Salitre, em parceria com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), com foco no controle da erosão e na restauração de 130 hectares.

“A recomposição e a restauração dos ecossistemas são instrumentos fundamentais para garantir qualidade de vida à população, segurança hídrica e conservação da biodiversidade. A partir desses investimentos, não tenho dúvidas de que a Sema fortalece a base necessária para a execução contínua e qualificada das ações de restauração ecológica no estado da Bahia”, destaca Hans Neto, diretor de Programas e Projetos da Sema.

No Dia Internacional das Florestas, a reflexão vai além da preservação da paisagem. Trata-se de garantir que existam ambientes capazes de sustentar a vida em sua diversidade e de reconhecer que, sem floresta, não há espaço para a fauna existir.

Fonte
Valquiria Siqueira - Ascom Sema/Inema
Tags
Floresta
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