Junho Verde promove reflexão sobre comunicação, educação ambiental e construção de novas narrativas para o futuro

03/06/2026
Roda de conversa educação ambiental
Tiago Júnior - Ascom Sema/Inema

Como comunicar os desafios ambientais de forma que as pessoas se reconheçam como parte das soluções? Como transformar informação em participação e conhecimento em ação coletiva? Essas foram algumas das questões que nortearam a roda de conversa “Meio Ambiente e Comunicação: a Educomunicação como Elo para o Protagonismo Socioambiental”, realizada nesta terça-feira (3), na Biblioteca do Meio Ambiente Milton Santos, em Salvador.

Promovido pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema), em parceria com a Secretaria da Educação (SEC), o encontro integrou a programação do Junho Verde e reuniu estudantes, professores, pesquisadores, comunicadores e gestores públicos para discutir o papel da educomunicação na formação de cidadãos mais conscientes, críticos e comprometidos com as transformações socioambientais.

Realizado no Dia Nacional da Educação Ambiental, o evento também dialogou com as comemorações do centenário do geógrafo baiano Milton Santos, cuja obra permanece referência para compreender as relações entre território, sociedade e meio ambiente.

Na abertura, o superintendente de Políticas e Planejamento Ambiental da Sema, Luiz Araújo, destacou que a comunicação ocupa papel estratégico nas políticas ambientais por aproximar as pessoas dos temas que afetam diretamente suas vidas.

“O meio ambiente não é uma pauta isolada. Ele conversa com tudo e com todos. E uma das formas mais eficazes de sensibilizar e mobilizar as pessoas é justamente por meio da conversa, da troca de experiências e da construção coletiva do conhecimento”, afirmou.

A escolha da Biblioteca do Meio Ambiente Milton Santos como sede da atividade buscou reforçar a reflexão sobre a importância da comunicação na aproximação das pessoas com as questões ambientais, explicou a diretora de Educação Ambiental para a Sustentabilidade da Sema, Mariana Mascarenhas.

“A educomunicação é um dos instrumentos previstos na Política Estadual de Educação Ambiental porque estimula metodologias participativas, fortalece o protagonismo social e cria oportunidades para que as próprias comunidades produzam e compartilhem conhecimento. Em um contexto marcado pelas redes digitais e pela circulação acelerada de informações, ouvir os jovens e compreender suas formas de comunicação também é fundamental para ampliar o diálogo e enfrentar a desinformação”, destacou.

Complementando essa perspectiva, a mediadora Silvani Honorato ressaltou o simbolismo de reunir diferentes gerações em um espaço dedicado ao conhecimento e à memória. “Celebrar o legado de Milton Santos discutindo meio ambiente e comunicação não é algo trivial. É um momento de encontro, de troca de conhecimentos e de fortalecimento da consciência socioambiental a partir do diálogo e da participação”, afirmou.


Entre a informação e a transformação

A palestra principal foi conduzida pelo professor e pesquisador José Vicente, referência nacional em educação ambiental. Em sua exposição, ele propôs uma reflexão sobre os desafios que marcam o tempo presente, relacionando questões ambientais, transformações tecnológicas e mudanças sociais. Ao recorrer à mitologia da Esfinge, conhecida pelo enigma “decifra-me ou te devoro”, o pesquisador sugeriu uma analogia com os desafios contemporâneos impostos pelas mudanças ambientais globais.

Segundo ele, a humanidade vive um período marcado por questões inéditas, que exigem novas formas de pensar e agir. Entre elas estão os eventos climáticos extremos, as transformações demográficas provocadas pelo envelhecimento populacional e os impactos ainda pouco compreendidos das novas tecnologias sobre a sociedade. “Ou seremos capazes de compreender esses desafios ou seremos devorados por eles. Não estamos falando de problemas distantes. Eles já fazem parte do nosso presente e exigem respostas coletivas”, observou.

Ao citar episódios recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul e os eventos extremos registrados em diversas regiões do país, o pesquisador ressaltou que os desafios ambientais ultrapassam a dimensão ecológica e exigem capacidade de adaptação, resiliência e reinvenção das formas de convivência social.

Nesse contexto, José Vicente defendeu a educomunicação como uma das ferramentas capazes de ampliar a participação social e democratizar a produção de conhecimento. Para ele, o principal valor de uma ação educomunicativa não está no produto final que é gerado, mas no processo vivido pelos participantes durante sua construção.

“O mais importante não é o vídeo, o podcast ou o jornal produzido. O mais importante é o percurso. É quando os estudantes se reúnem, pesquisam, debatem, assumem responsabilidades, constroem respostas coletivas e aprendem uns com os outros”, explicou.

Segundo o pesquisador, é nesse processo que a educação deixa de ser apenas transmissão de conteúdo para se transformar em construção coletiva de conhecimento. Ao produzir informações sobre problemas que afetam seus territórios, estudantes e comunidades tornam-se sujeitos ativos da comunicação e da transformação social.

José Vicente também destacou que a educomunicação contribui para romper a lógica da informação produzida exclusivamente pelos grandes meios de comunicação, criando condições para que escolas, associações comunitárias e organizações sociais construam e compartilhem suas próprias narrativas. “Quando as pessoas produzem conhecimento sobre sua própria realidade, elas ampliam sua capacidade de compreender os problemas e de participar da construção das soluções”, afirmou.


Quem conta as histórias sobre o meio ambiente?

A defesa da produção coletiva de conhecimento e da construção de narrativas próprias encontrou eco na fala do antropólogo e fotógrafo documental Ismael Silva, que chamou atenção para a necessidade de ampliar a diversidade de vozes presentes no debate ambiental.

“Quando falamos de meio ambiente, muitas vezes parece que estamos falando de algo homogêneo. Mas cada território, cada comunidade e cada grupo social vive essas questões de maneira diferente”, afirmou.

Ismael destacou que comunidades negras, quilombolas, povos indígenas, povos de terreiro e moradores das periferias urbanas frequentemente experimentam os efeitos das crises ambientais de forma mais intensa e, ainda assim, nem sempre ocupam os espaços de decisão ou de construção das narrativas públicas sobre o tema. Essa percepção, segundo ele, precisa estar presente tanto na formulação das políticas públicas quanto nos processos de comunicação e educação ambiental.


Educação ambiental para além das datas comemorativas

As discussões também evidenciaram o papel da escola como espaço privilegiado para conectar conhecimento, participação social e cidadania. Jéssica Gouveia, representante do Programa A TARDE Educação compartilharam experiências de educomunicação desenvolvidas junto a estudantes, destacando a importância de estimular a produção de conteúdos e o desenvolvimento do pensamento crítico.

“A escola é um espaço onde se constrói cidadania. Quando o estudante produz conteúdo e interpreta a realidade de forma crítica, ele deixa de ser apenas receptor de informação e passa a atuar como protagonista”, destacou a pedagoga e mestra em Educação.

A professora Letícia, do Instituto Anísio Teixeira, reforçou a relevância das discussões ambientais para a formação dos jovens, inclusive em avaliações como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Segundo ela, temas relacionados às mudanças climáticas, sustentabilidade e cidadania ocupam cada vez mais espaço nos debates contemporâneos e podem aparecer em diferentes contextos da formação estudantil.

Já o professor André Monteiro compartilhou experiências desenvolvidas em sua unidade escolar, onde projetos de horta, compostagem e gestão de resíduos vêm sendo utilizados como ferramentas pedagógicas para aproximar os alunos das questões ambientais. Segundo ele, a educação ambiental não deve ficar restrita às datas comemorativas.

“Os problemas ambientais acontecem durante todo o ano. Junho é importante para dar visibilidade ao tema, mas esse trabalho precisa estar presente no cotidiano das escolas e das comunidades”, afirmou.

Em resposta, Luiz Araújo destacou que a Sema divulgou, neste dia 3, manifestação de interesse do Programa Replantar para apoiar escolas interessadas na implantação de viveiros educacionais e em outras ações voltadas à educação ambiental nos territórios [saiba mais aqui].


Quando os estudantes produzem as próprias narrativas

A teoria discutida ao longo da programação ganhou expressão prática na etapa final do encontro. Reunindo estudantes de diferentes unidades da rede estadual, a segunda roda de conversa, “Ecos do futuro: juventudes comunicando a emergência climática na era digital”, apresentou projetos que utilizam a comunicação, a ciência e a educação ambiental como instrumentos de transformação social.

Ao abrir o diálogo, a Secretaria da Educação destacou que comunicar também significa valorizar aquilo que surge dos territórios e das experiências vividas pelos próprios estudantes. “Além do que a gente vê nos jornais e do que já está posto, existem outras histórias e outras realidades que nascem nos territórios. E isso também é comunicação”, observou Isis, representando a SEC.

Entre as iniciativas apresentadas esteve a Agência Voz Ativa, do Colégio Estadual Cláudio dos Santos. As estudantes compartilharam experiências de produção de conteúdo voltadas para a divulgação de ações da escola e para o fortalecimento da relação entre a comunidade escolar e o território onde está inserida.

As jovens também apresentaram projetos voltados à sustentabilidade e à conscientização ambiental, mostrando como a comunicação pode aproximar estudantes, famílias e moradores das discussões sobre preservação da natureza e responsabilidade socioambiental.

Representantes do Clube de Ciências do Colégio Central da Bahia destacaram a importância da divulgação científica e da popularização do conhecimento como estratégias para ampliar a compreensão sobre os desafios ambientais contemporâneos.

A mesa contou ainda com a participação de Nicolas Moreira, estudante de Geologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que compartilhou sua trajetória acadêmica e ressaltou a importância dos projetos científicos e do movimento estudantil em sua formação.

Ao refletir sobre sua experiência na escola pública, Nicolas destacou o papel da educação como instrumento de transformação social e chamou atenção para a necessidade de construir políticas públicas capazes de responder às desigualdades que marcam os territórios e os grupos mais vulneráveis aos impactos ambientais.

As apresentações evidenciaram a diversidade de experiências desenvolvidas nas escolas da rede estadual, envolvendo comunicação comunitária, divulgação científica, educação ambiental, hortas escolares, reciclagem e iniciativas voltadas à valorização dos saberes dos territórios.

 

Fonte
Valquiria Siqueira - Ascom Sema/Inema
Tags
Educação Ambiental
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