A atuação do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) no caso de contaminação química em São Tomé de Paripe foi apresentada nesta sexta-feira (28), durante o 8º Seminário de Toxicologia: A Contaminação Ambiental e seus Impactos sobre a Saúde da População, realizado em Salvador. O evento reuniu profissionais, estudantes e especialistas das áreas de meio ambiente e saúde para discutir os impactos da contaminação química e estratégias de avaliação, gestão e redução de riscos à população.
Promovido pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), o seminário contou com uma programação voltada à análise e gestão de riscos relacionados à exposição a agentes químicos, além da participação de instituições que atuam no caso de São Tomé de Paripe. Representando o Inema, a especialista em Meio Ambiente e Recursos Hídricos Aline Almeida, formada em Química, detalhou as ações realizadas pelo Instituto desde a denúncia registrada em fevereiro deste ano e os resultados das investigações ambientais.
Segundo a especialista, o caso envolve diferentes matrizes ambientais e uma comunidade diretamente inserida na área afetada, o que demandou a atuação integrada de diferentes instituições. “Cada órgão agindo dentro da sua competência”, explicou Aline, ao destacar a participação das áreas de saúde, vigilância sanitária, Ministério Público e demais instituições envolvidas.
No âmbito ambiental, o Inema realizou inspeções técnicas entre fevereiro e abril de 2026, incluindo a coleta de amostras de água do mar, água intersticial, sedimentos e biota. As equipes vistoriaram o Terminal Marítimo, a Praia de São Tomé de Paripe e a Praia de Inema, na Base Naval de Aratu.
“As inspeções identificaram, entre outras inconformidades, armazenamento inadequado de ureia em área descoberta, deficiências no sistema de drenagem, acúmulo de sedimentos e resíduos, funcionamento inadequado da estação de tratamento de efluentes e evidências de arraste de sólidos para a faixa de praia. Também foi registrada a confirmação, pela própria empresa, de um episódio de descarga acidental de ureia diretamente no mar em decorrência de falha no sistema de contenção do píer”, afirmou a especialista.
Um problema que também tem dimensão histórica
Durante a apresentação, Aline também resgatou o histórico de ocupação e operação do terminal, mostrando que a ocorrência de 2026 está inserida em um contexto ambiental mais amplo.
O terminal marítimo localizado na Ponta da Sapoca (Ponta do Sapucaia), em São Tomé de Paripe, foi implantado após autorização do Governo Federal em 1968 para atender à Usina Siderúrgica da Bahia (Usiba), com início da operação na década de 1970. Ao longo dos anos, passou por diferentes operadores e ampliações, até chegar à atual denominação de Terminal Itapuã.
O histórico também está relacionado aos estudos de Gerenciamento de Áreas Contaminadas (GAC) realizados a partir de 2020. Na fase de investigação confirmatória, foram identificadas concentrações acima dos valores de investigação da Resolução Conama nº 420/2009 para diferentes substâncias no solo e na água subterrânea.
Já em 2026, as análises realizadas pelo Inema identificaram elevadas concentrações de compostos nitrogenados em efluentes, águas intersticiais e água do mar, além de concentrações elevadas de cobre. Também foram identificados cobre, ferro e zinco em crustáceos e moluscos bivalves, além de arsênio acima do limite máximo tolerado pela Anvisa na biota analisada.
Integração entre meio ambiente e saúde
Para Jucelino Nery, diretor do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), a escolha do caso de São Tomé de Paripe para o seminário surge em momento oportuno, com o objetivo de promover a troca de conhecimentos entre órgãos públicos, academia e representantes da população, contribuindo para a redução dos riscos e para a mitigação dos impactos.
“Por se tratar de uma situação de grande amplitude e pouco comum no estado, a participação de profissionais especializados contribui para subsidiar as equipes que atuam no enfrentamento do problema”.
A programação também contou com a participação do Ministério Público da Bahia (MP-Ba), representado por Maria Betânia Figueiredo, Analista Ministerial do CEAT/MP. A representante abordou o histórico da área e os diferentes períodos de ocupação e movimentação de cargas no terminal, chamando atenção para a existência de um passivo ambiental acumulado ao longo de décadas.
Desdobramentos do caso
Como parte dos desdobramentos da ocorrência, o Inema recomendou a restrição de acesso e de atividades de contato primário no trecho da Praia de São Tomé de Paripe sob investigação, considerando a presença de substâncias químicas nas matrizes ambientais avaliadas.
O Instituto também adotou medidas administrativas relacionadas ao Terminal Itapuã e à Gerdau Aços Longos, incluindo autos de infração e notificações.