MAB 107 anos: histórias surpreendentes, relíquias e curiosidades do primeiro museu de arte da Bahia

24/07/2025
Divulgação

Você sabia que o Museu de Arte da Bahia (MAB) já recebeu obras de um dos maiores escultores do mundo? Ou que uma de suas salas já serviu de cenário para produções cinematográficas? Com mais de um século de existência, o MAB abriga não apenas um dos acervos mais ricos do país, mas também guarda memórias pouco conhecidas que atravessam a história, a arquitetura e o papel cultural do museu na Bahia.

Na celebração dos 107 anos do museu, buscamos histórias de bastidores, curiosidades e episódios marcantes e, por vezes, inusitados que ajudam a entender o que torna o museu tão singular. Prepare-se para descobrir um lado menos conhecido, mas fascinante do primeiro museu de arte da Bahia, atualmente ocupando o Palácio da Vitória, que na década de 40 sediou a Secretaria de Educação e Saúde do Estado, tendo à frente o educador Anísio Teixeira.

O visitante se depara com uma das preciosidades do MAB logo na entrada. A porta do Museu é uma peça monumental reaproveitada do antigo Solar João de Matos Aguiar, demolido entre 1924 e 1927, durante o governo de Francisco Marques de Góes Calmon, para o alargamento da Ladeira da Revolta dos Malês.

Datada de 1674, a portada é composta por moldura em arenito com desenhos em trança e frontão com volutas. Já a porta de madeira, feita em vinhático e jacarandá, traz painéis retangulares com máscaras entalhadas em baixo-relevo. Ao ser incorporada à fachada do museu, a peça passou a representar não apenas a entrada, mas um convite à preservação da memória arquitetônica da cidade.

Outro tesouro, que fica logo no salão de entrada, à esquerda, é um móvel que pode passar desapercebido pelos mais apressados. Um armário entalhado, que chegou ao MAB em 2005 por meio de comodato e passou a integrar a exposição “Madeiras do Brasil e os artistas da madeira”, guarda a coleção “Riquezas do Brasil”. Reunida ao longo de décadas pelo médico e colecionador Antonio Berenguer, natural de Santo Amaro da Purificação, a coleção é constituída de 600 amostras de madeiras brasileiras moldadas em formato de pequenos livros.

As espécies foram coletas em fazendas do interior paulista e incluem nomes como jacarandá, ipê, imbuía, canela, louro e até madeiras de nomes curiosos, como “pau-para-tudo” e “quebra-facão”. Mais que uma excentricidade, a iniciativa de Berenguer é um gesto de amor à diversidade da flora nacional e à árvore que deu nome ao nosso país.

Um tamborete que fala

Entre os objetos mais simbólicos do acervo está o tamborete de baiana também conhecido como “mocho de vendedeira”. Feito em jacarandá, palhinha e Sebastião-de-arruda, o pequeno banco era utilizado por mulheres negras que vendiam seus quitutes pelas ruas de Salvador no século XIX.

Essas ganhadeiras, como eram chamadas, usavam o tamborete em sua rotina de trabalho, e sua presença no museu, em exposição na sala de mobiliário do século XIX, nos faz refletir sobre os processos de musealização, memória e apagamento histórico. Ao sair das ruas e ocupar um espaço museológico, o tamborete carrega vozes, resistências e histórias que ainda precisam ser ouvidas, segundo revelam as professoras Joseania Freitas e Lysie dos Reis Oliveira, que deram voz ao tamborete no texto ‘Memórias de um tamborete de Baiana.

“Na minha trajetória de vida de tamborete, como coisa-objeto-artefato, uma perversa identidade com os seres humanos escravizados, pois eram também considerados 'coisas' para aqueles que detinham o poder econômico e político”, destaca um trecho do artigo.

 

As professoras ressaltam a importância da cidade de Salvador na produção de artes e ofício entre o período colonial e o imperial. “Parte dessa produção, relativa ao mobiliário, encontra-se em museus, a exemplo do MAB, que tem um significativo acervo que comprova a habilidade das produções lusas e baianas”.

Móveis que contam histórias

Entre os objetos menos lembrados, mas de valor histórico, artístico e cultural  está a coleção de mobiliário antigo que integra o acervo de artes decorativas do MAB. Mais do que meras peças de decoração, esses móveis ajudam a contar como viviam as famílias baianas entre os séculos XVIII e XIX.

Dois exemplares se destacam: uma cômoda e um oratório, ambos confeccionados em jacarandá e outras madeiras nobres, datados do final do século XVIII. A cômoda impressiona pelas proporções generosas e pela leveza de suas formas, com detalhes no estilo rocaille, entalhes sofisticados, marchetaria e puxadores em bronze cinzelado inspirados em móveis religiosos como os da sacristia da Basílica da Conceição da Praia.

Já o oratório, de presença imponente, guarda painéis em alto-relevo que retratam cenas da Paixão de Cristo. Policromados e cercados por talha dourada em estilo rococó, fazem da peça uma verdadeira joia da arte sacra brasileira.

Outro conjunto digno de nota é o das cadeiras no estilo D. João V, produzidas na Bahia na segunda metade do século XVIII. Entalhadas em jacarandá com riqueza de detalhes no cachaço, avental e joelhos, e com os icônicos pés em “garra e bola”, as peças revelam a releitura baiana do design português com forte influência do estilo inglês Queen Anne. O estofado em seda adamascada carmesim reforça o status que essas cadeiras representavam nas residências coloniais.

Parte desse acervo de movelaria estará em breve em uma exposição, mas a partir da nova perspectiva curatorial, buscando privilegiar os artistas e não os proprietários das peças, abrindo novas possibilidade de contemplação da arte.

Quer saber mais sobre essa transformação? Na próxima matéria da série especial, vamos mostrar como o MAB vem redesenhando sua identidade, repensando o papel social do museu e investindo em uma curadoria crítica, com foco em inclusão e pluralidade de narrativas.

Por: Alexa Santa Rosa