Bembé do Mercado, maior ritual do Candomblé ao ar livre no Brasil, ganha monumento em prol das tradições africanas e do combate ao racismo

13/05/2023
Escultura que homenageia ao pai de santo africano João de Obá, que iniciou a manifestação em 13 de maio de 1889, passa a fazer parte do circuito turístico do município de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano

O Bembé do Mercado, manifestação cultural e religiosa realizada em Santo Amaro, município do Recôncavo Baiano, considerada o maior ritual do Candomblé do Brasil em praça pública, recebe escultura do pai de santo de origem Malê conhecido por João de Obá, no 134º aniversário da tradição iniciada por essa liderança africana em 13 de maio de 1889, junto com seus filhos de santo e pescadores locais. A homenagem à iniciativa, que remete ao fim da escravidão, endossa a resistência da população negra, a preservação das tradições de matriz africana, o combate ao racismo e a intolerância religiosa no Brasil.

Instalada no Largo do Mercado, na região central, o monumento passa a fazer parte do circuito turístico de Santo Amaro a partir deste domingo, 14 de maio, com visitação gratuita. O busto produzido pela artista plástica soteropolitana Annia Rízia mede 56 cm de altura e 40 cm de comprimento e foi confeccionado com resina revestida com pó de mármore e grafite, matérias-primas ideais para a manutenção da obra em espaço aberto. O projeto é idealizado pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), de Salvador, e realizado em parceria com a Associação Beneficente Bembé do Mercado, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e a Prefeitura de Santo Amaro.

“O Bembé do Mercado foi criado para pedir a tolerância da população e das autoridades com as tradições e a cultura africana no município de Santo Amaro no século XIX. Uma atitude bastante simbólica e atual, como se estivéssemos estendendo a bandeira branca pela paz. O busto, além de justo, é a forma de nunca esquecermos a memória do João de Obá e de reafirmar a sua luta nos dias atuais”, defende José Raimundo Chaves, o “Pai Pote”, presidente Associação Beneficente Bembé do Mercado.

“Celebrar os 134 anos do Bembé do Mercado é fortalecer a salvaguarda de nossas tradições fundantes, enaltecer a resistência e a força dos terreiros do candomblé e das tradições africanas em nossa estrutura social. Enquanto patrimônio imaterial do Estado da Bahia e maior candomblé de rua do mundo, celebramos nossa ancestralidade, o saber, a cultura e identidade da população negra no nosso estado e nosso país”, afirma Luciana Mandelli, diretora geral do IPAC.

“As imagens e as estátuas para a tradição africana, de maneira geral, são fundamentos materiais que ajudam os povos pretos a se conectarem com o universo simbólico da fé. É também uma forma dos negros conhecerem, revisitarem e fortalecerem o legado dos seus antepassados na luta pela conquista dos direitos da população preta no Brasil. Nesse sentido, o busto de João de Obá homenageia a dedicação desse sacerdote na quebra de barreiras e na manutenção do Candomblé no país”, explica Cintia Maria, presidente do Muncab.

*Legado* - O Bembé se caracteriza como uma obrigação religiosa destinada às divindades das Águas para agradecer e propiciar o bem-estar da coletividade. São três momentos cerimoniais: os ritos ligados ao fundamento da festa (as cerimônias para os ancestrais, o Padê de Exu, o Orô de Iemanjá e Oxum); o Xirê do Mercado e a entrega dos Presentes destinados a Iemanjá; e a Oxum, que reúnem mais de 40 terreiros de matrizes afro-brasileiras de várias nações nas ruas de Santo Amaro da Purificação. Contudo, sua produção e execução envolvem diversos atores sociais como os comerciantes locais, pescadores, ativistas políticos, brincantes de Maculelê e detentores de bens já registrados como Patrimônio Cultural do Brasil, samba de roda do Recôncavo e capoeira.

O Bembé foi reconhecido como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, em 2012, e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2019. Existem diversas teorias sobre o uso do nome Bembé, quase todas assentadas nos processos da diáspora africana. Entretanto, pesquisa realizada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Iphan com os praticantes mais antigos indica que o nome deriva de Candomblé ́. O Bembé é como um balaio de história, cultura, arte e ação política que acolhe o melhor das expressões do Recôncavo Baiano. A capacidade inventiva e transformadora desta festa permitiu que ela sobrevivesse neste espaço por mais de um século, sendo um marco contra o passado escravagista. Por isso, sua relevância para a memória, a história e a cultura nacional.
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