“Financiamento coletivo é forma democrática de se colocar um projeto em prática”, afirma fundadora da Kickante

27/07/2016
Candice Pascoal, 37 anos, fundadora e presidente da Kickante, uma das principais plataformas de financiamento coletivo do Brasil, participou como palestrante, no Museu de Arte da Bahia (MAB), na quinta-feira (21), durante ação do programa estadual Narrativas Patrimoniais - Diálogo, Fomento e Qualificação, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

 

O convite foi feito pela equipe do IPAC e compreende uma das linhas de ação propostas pelo programa. ”Narrativas Patrimoniais é um programa de Preservação e Valorização do Patrimônio Cultural, com proposta itinerante, que sugere a capacitação com transparência, universalizando o conhecimento e ampliando as possibilidades de atuação. Além disso, o ‘Narrativas’ tem em sua linha de ação o fomento, através da divulgação de editais públicos, sempre de forma transparente e democrática”, aponta a assessora-chefe do IPAC, Margarete Abud.

 

Segundo Candice, foi uma honra retornar a Salvador para participar de palestra e workshop no MAB, equipamento gerido pelo IPAC. “Ter a oportunidade de conversar sobre como a Kickante vem mudando a realidade do brasileiro é sempre positivo, e esperamos contribuir ainda mais para a realização de projetos, metas e sonhos de todos que participarem da palestra”, conta a baiana de Juazeiro, radicada no exterior, que veio diretamente da Holanda para os eventos em Salvador sobre financiamento coletivo. Confira a entrevista:

 

 

IPAC - Você foi listada como uma das 50 profissionais mais inovadoras de comunicação e marketing. E já recebeu o título de uma das “Dez brasileiras mais inovadoras na área de tecnologia”. A que se deve este reconhecimento?

 

CANDICE PASCOAL – Durante a minha atuação como vice-presidente internacional da Putumayo World Music, em Nova York, fui responsável pelo lançamento de grandes nomes no cenário musical mundial. Também me especializei no segmento de arrecadação de fundos, em que estive à frente de importantes projetos de captação de recursos para ONGs na Europa, Ásia e Américas, como: Médicos sem Fronteiras, Cruz Vermelha, WWF, Anistia Internacional, entre outras. Hoje sou fundadora e CEO da Kickante, além de palestrante internacional e escritora. Toda essa minha experiência e bagagem profissional junto com minha atuação na Kickante com certeza são os responsáveis pelo meu reconhecimento no mercado.

 

IPAC - Como surgiu a Kickante, diante dos desafios do mercado?

 

CP - Eu trabalhava na indústria da música e vi de perto as mudanças e a queda das empresas da área por não saberem como lidar com o mundo digital. Também trabalhei fazendo arrecadação de fundos para as maiores ONGs do mundo e vi que tudo era feito com um custo enorme. Então conheci o mercado de crowdfunding (financiamento coletivo) e vi que ainda estava muito atrás no Brasil, onde o mercado poderia evoluir para uma solução completa de arrecadação digital em que se poderia ajudar mais o arrecadador se ele não se sentisse desamparado, para não dar sequência à elitização que já havia visto de perto. Assim, enxerguei no crowdfunding o potencial de democratização, de oferecer o poder a qualquer pessoa de tirar projetos do papel. Então me juntei ao meu irmão, Diogo Pascoal, para fundar a Kickante: uma plataforma de arrecadação digital em que os brasileiros pudessem de fato ter acesso a capital de forma democrática, tirando seus projetos do papel com todo o apoio e know-how necessários, utilizando técnicas avançadas de arrecadação de fundos que seguem os modelos internacionais de arrecadação. Hoje, a Kickante é a maior plataforma de financiamento coletivo do país - desde sua criação, em outubro de 2015, já lançou mais de 25 mil campanhas e captou mais de R$ 28 milhões.

 

IPAC - O patrocínio de empresas privadas e a procura em editais públicos segmentados são algumas das alternativas buscadas pelos artistas, pelos agentes culturais, atualmente. Mas, com a ascensão e forte influência das mídias sociais, a busca pelo financiamento coletivo torna-se mais uma oportunidade, não é verdade? O que acha?

 

CP - Com certeza! Hoje o financiamento coletivo é uma forma democrática de se arrecadar a quantia necessária para colocar um projeto em prática. E isso é tão verdadeiro, que só em 2015, a categoria “música” ficou em segundo lugar entre as categorias que mais arrecadaram na Kickante, com um valor total de R$2.592.037,86. Já com relação ao número de campanhas lançadas em 2015, a categoria “música” ficou em terceiro lugar, com um total de 1.510 campanhas lançadas. Isso mostra que o brasileiro, cada vez mais, conta como financiamento coletivo para realizar um sonho, e vem gradativamente atingindo seus objetivos e metas com ele. Veja abaixo, um demonstrativo dos valores arrecadados em 2015 dentro de algumas categorias que entram no nicho cultura:

 

















































CATEGORIAS COM MAIOR ARRECADAÇÃO EM 2015


POSIÇÃOCATEGORIAQUANTIDADE

2


Música

R$2.592.037,86



3


Literatura

R$1.291.388,46



11


Cinema

R$432.541,88



12


Fotografia

R$389.431,10



17


Teatro

R$257.750,92



20


Artes

R$224.359,37



 

IPAC - Você é baiana, conhece diversos lugares do mundo e mora há 15 anos no exterior. Qual o próximo passo da sua carreira?

 

CP - Estou lançando um livro para ajudar o empreendedorismo no Brasil com uma das maiores editoras do Brasil, e também o Kickante TV. Sentimos que estamos no comecinho do impacto social e cultural que queremos causar no país.

 

IPAC - A Bahia é conhecida por ser rica culturalmente e por apresentar diversos projetos inovadores. Como você avalia as possibilidades de inserção de projetos na plataforma de financiamento coletivo nas áreas de Patrimônio, Arquitetura, Urbanismo e Museus?

 

CP - Hoje, o financiamento coletivo não é só uma forma democrática de concretizar seus projetos, mas também um meio de informar e mostrar à população toda a riqueza em ideias e iniciativas que nosso país é capaz de criar. E a Bahia, com certeza, é um dos estados pioneiros em projetos inovadores. De fato, o financiamento coletivo pode e vai oferecer diversas possibilidades não só para as áreas de patrimônio, arquitetura, urbanismo e museus, mas para todo e qualquer projeto inovador.

 

I - O Kickante também tem como foco projetos culturais e de empreendedorismo e traz alguns diferenciais, como o parcelamento das contribuições (o projeto recebe de uma vez, mas o colaborador pode parcelar no seu cartão) e oferece a possibilidade da conclusão parcial dos projetos (mesmo que não recebam a meta total de contribuições, e caso os colaboradores concordem, o projeto recebe os valores parciais). Como conseguir que o projeto atinja a meta estabelecida? O que você sugere? E sobre projetos de sucesso, quais ligados ao patrimônio cultural foram bem-sucedidos?

 

CP - Sempre explicamos que o fator determinante para o sucesso do projeto, independentemente da categoria que faz parte, é a garra e dedicação do empreendedor. É importante também ressaltar que para captar bem via crowdfunding é necessário muito esforço de divulgação e de relacionamento. Na Kickante, todo criador conta com uma assessoria gratuita de marketing digital, que acompanha (criador e projeto) durante toda a campanha, e que dá total apoio aos projetos com estratégia, acompanhamento e dicas para que a campanha tenha sucesso. No entanto, o esforço maior é do criador, que durante todo o período que a campanha estiver ativa precisa investir um bom tempo diário na divulgação, para estimular trazer mais pessoas a colaborarem. Sobre projetos ligados ao patrimônio cultural, temos os cases da Igreja do Senhor do Bonfim e Vila Velha.

 
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