Arquiteto, Frederico Mendonça é, desde 2007, diretor geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC –, autarquia vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia – UFBA –, tem especialização em Gestão Ambiental pela Universidade de Bradford (Inglaterra), e Urbanismo e Ordenamento Territorial pelo Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris XII (França).
Em entrevista, Mendonça fala sobre sua atuação junto à preservação do patrimônio cultural, as dificuldades que o IPAC enfrenta as manifestações culturais originárias da África na Bahia, e a polêmica sobre a presença das Baianas do Acarajé no estádio, durante os jogos da Copa de 2014.
O senhor está à frente do IPAC desde 2007 e, antes disso, foi Superintendente do Iphan na Bahia e trabalhou com o Projeto Monumenta. Como começou seu interesse pelo trabalho com o patrimônio?
A partir da militância e da atividade profissional ligada à conservação ambiental, num primeiro momento, com participação em movimentos ambientalistas na década de 1980 e na experiência de planejamento e gestão de unidades de conservação ambiental na Conder – Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia. A passagem pelo Iphan, entre 2003 e 2004, consolidou o entendimento de que, sem conservar os elementos mais expressivos de nossa cultura e paisagem cultural, não poderemos garantir um desenvolvimento social e econômico adequado para nós e aos que virão depois de nós.
Este ano o IPAC completa 45 anos e, desde 2007, faz articulações nacionais e locais – prefeituras baianas – com objetivo de implantar uma política pública efetiva de proteção aos bens culturais da Bahia. Quais as maiores dificuldades que o patrimônio da Bahia enfrenta hoje?
A especulação imobiliária e a ausência de mecanismos reguladores do uso e da ocupação do solo nas prefeituras; a noção de desenvolvimento descolada da abordagem cultural, além da fragilidade das instituições que lidam com os bens culturais. Na Bahia, por exemplo, a Secretaria de Cultura só foi criada a partir de 2007 e as sucessivas administrações de Salvador e dos núcleos urbanos de médio porte não têm colocado seu patrimônio cultural como elemento constituinte fundamental do desenvolvimento.
As instituições que cuidam da preservação do patrimônio no país sofrem com os recursos limitados. A busca de parcerias tem sido uma alternativa em alguns estados de viabilizar ações. Isso acontece também na Bahia? Como o IPAC enfrenta esse cenário?
Buscando informar aos gestores e representantes municipais sobre a relevância do patrimônio cultural e de se articular com os Conselhos Comunitários e organizações sociais no sentido de adotar uma postura conservacionista, estabelecendo limites à ação especulativa. Estamos trabalhando para adotar a experiência do ICMS Patrimônio Cultural implantada em Minas Gerais, entendendo ser necessário estabelecer estímulos financeiros às ações conservacionistas. O patrimônio deve ser reconhecido como bônus e não apenas como ônus para proprietários e gestores públicos.
A Bahia é símbolo de festa e religiosidade, principalmente de matriz africana, e recentemente, a Festa do Bembé do Mercado foi registrada como bem imaterial da Bahia. Podemos dizer que a Bahia é o estado onde as manifestações culturais africanas estão mais preservadas em nosso país?
Com a ampliação do campo do patrimônio para a dimensão intangível, o IPAC tem feito um esforço para se aproximar das manifestações populares de longa tradição e forte representatividade social. Neste contexto, o Livro de Festas e Celebrações já tem o maior número de manifestações inscritas para proteção, embora estejamos ainda restritos ao Recôncavo. Dada a dimensão territorial da Bahia e sua diversidade cultural, ainda temos muito que avançar.
Muito tem se discutido sobre a presença das Baianas do Acarajé, patrimônio imaterial da União e da Bahia, na Fonte Nova durante a Copa do Mundo de 2014. Como o senhor vê esse impasse entre a FIFA e a tradição local?
Existe uma pressão muito forte de vários segmentos e do governo estadual no sentido de se garantir o ofício das baianas de acarajé nas imediações da Arena Fonte Nova, como sempre ocorreu no antigo Estádio. Elas estão - e estarão - em toda a cidade e ficaria muito estranho a ausência delas num evento de tão grande porte. A decisão final, contudo, dependerá de negociações que extrapolam a autarquia.
O Pelourinho passará por ampla reforma e revitalização para a Copa do Mundo de 2014, com direito a palco articulado e retrátil para a realização de shows e eventos. Como foi escolhido o projeto e como se dará essa obra?
A ideia do palco retrátil é do arquiteto e professor Pasqualino Magnavita que a apresentou desde o início da década de 1990 e consta da publicação “Pelo Pelô: História, Cultura e Cidade” (EDUFBA, 1995). Através da Secretaria de Turismo da Bahia, contratamos o arquiteto e o engenheiro estruturalista José Luiz Souza para desenvolverem o projeto executivo e para realizar as obras de instalação do novo equipamento cultural num espaço de forte carga simbólica. Trata-se de uma intervenção contemporânea em sítio tombado pelo Iphan que deverá contribuir para preservar o conjunto edificado su
bstituindo as práticas de montagem e desmontagem de palcos no Largo do Pelourinho ou Terreiro de Jesus, que prejudicam a pavimentação e a visibilidade do casario.
Como conciliar o grande volume de público, que certamente acontecerá durante os eventos, e a preservação?
A gestão dos eventos será detalhada na sequência, mas existem meios de controle de acesso público, conforme a tradição local de organização de grandes festas de rua.