Cada pessoa é dotada de inteligência, cognição e criatividade, e é capaz de construir suas próprias narrativas a partir daquilo que observa, ouve e aprende. Quanto mais consideramos e celebramos a autonomia, mais nos surpreendemos com a capacidade de transformação pessoal e do entorno social de cada individuo. O educador Paulo Freire já afirmava que o “respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.
Acreditando nisso, o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), a partir da programação educativa do Museu Escola Lina Bo Bardi e em parceria com o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) – diante da recente restauração dos murais modernistas da Escola Parque e Escola Classe II, localizadas respectivamente nos bairros da Caixa D’Água e Pero Vaz, Salvador (BA) –, disponibilizaram um curso de formação em Mediação Cultural, com jovens selecionados tendo como pré-requisitos ser estudante e participar de atividades artísticas da Escola Parque.
O curso que ocorreu no mês de fevereiro, com carga horária de 40 horas, utilizou como metodologia pedagógica a aplicação de aulas teóricas e visitas técnicas aos equipamentos culturais do IPAC, ministrado pela arte-educadora Ana Rachel Schimiti e a museóloga Michele Pontes, mediadoras culturais do MAM-BA.
Durante os encontros expositivos foram abordados temas como o contexto histórico e social da Arte Moderna na Bahia, período designado por Antônio Risério como avant gard, o sítio arquitetônico, histórico e cultural do Solar do Unhão, a criação do Museu de Arte Moderna do Bahia, seu acervo, histórias e exposições em cartaz; o programa educacional de Anísio Teixeira, seu pensamento e ideologia para a Educação baiana e o pioneirismo do ensino integral no Brasil. E para fechar o programa o tema escolhido foram às práticas pedagógicas do Educador Paulo Freire a partir do livro referência ‘Pedagogia da Autonomia’.
Para Michele Pontes, o curso, além de preparar para recepcionar o público interessado em conhecer mais sobre a história do Centro Educacional Carneiro Ribeiro e sobre os murais, painéis e afrescos de artistas plásticos – como Mário Cravo Júnior, Carybé, Jenner Augusto, Carlos Mangano, Maria Célia Amado – propiciou noções de patrimônio cultural e a importância da preservação e educação patrimonial.
“É função dos mediadores culturais atuar diretamente no atendimento e na formação de público ao desenvolver ações educativas específicas nas dimensões estéticas, artísticas, culturais e patrimoniais sensibilizando a comunidade para a importância das artes na autoconstrução pessoal e para a consciência transformadora de cada ser humano. Nesta programação especial para a Escola Parque foram discutidos temas pontuais, que integram a exposição Memória Parque, a preservação dos painéis restaurados pelo IPAC e entregues a comunidade escolar, e a história da Escola Parque, objeto de estudo e desdobramento para as ações educativas”, explica a museóloga Michele Pontes.
Já a arte-educadora Ana Rachel Schimiti destacou a importância da formação da figura do mediador cultural, pois, para ela, além de conduzir visitas guiadas com temas transversais que ampliam a leitura das obras expostas, ele é responsável por receber os visitantes e grupos em espaços culturais para uma maior interação do visitante com as obras expostas.
“A mediação cultural realizada em espaços expositivos é uma proposição pedagógica. Desenvolve-se através de diálogos, debates e da experiência com o objeto, com a exposição e com o espaço que a abriga. Perguntar, compreender e dialogar com interlocutor, buscando enriquecer ao máximo o seu ponto de vista sobre a exposição é o papel do mediador. Nunca partindo de narrativas prontas, de aulas preparadas ou discursos prontos. Cada conversa parte de um lugar diferente e segue seu próprio caminho, conduzido pelo próprio visitante, nunca pelo mediador”, conta Ana Raquel.
Icaro Santana, 19 anos, estudante do 3º ano da Escola Celina Pinto, localizada no bairro do Curuzu, foi um dos jovens que participou do curso de formação em mediação cultural. Bastante satisfeito pela oportunidade, diz gostar de arte e vislumbra novos caminhos para sua vida profissional: “Fui indicado pela diretora da minha escola e estou muito feliz por todo conhecimento adquirido no curso. Pude ampliar meus conhecimentos, desde o início com minha participação no III Ciclo de História da Arte, oferecido pelo MAM e realizado na Biblioteca da Escola Parque. Lá tive noções sobre a arte contemporânea, arte moderna e arte latino-americana. Agora, a partir do curso de formação em mediação cultural poderei levar também um pouco de conhecimento para os visitantes, que muitas vezes desconhecem sobre obras e artistas, principalmente, dos artistas baianos”, conta o jovem.
Exposição Memória Parque
A partir do programa de mediação cultural foi desenvolvido um projeto educativo para a exposição Memória Parque, que visa dar conta do espaço histórico e arquitetônico da Escola Parque. Nesse sentido, a programação do Museu Escola Lina Bo Bardi propõe a construção de espaços abertos para discussões e compartilhamento de ideias em torno da educação, arte, arquitetura, cultura e patrimônio.