Ameaças aos ecossistemas costeiros são tema da Caravana do Defeso em Valença

20/02/2025
 Ameaças aos ecossistemas costeiros são tema da Caravana do Defeso em Valença

A Caravana do Defeso chegou a Valença (a 123,9 km de Salvador) nesta terça-feira (19), promovendo um debate relevante sobre os riscos que afetam os ecossistemas costeiros e a necessidade de conservar a biodiversidade marinha. A iniciativa, coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), percorre municípios da Baía de Todos-os-Santos e do Baixo Sul, fortalecendo o diálogo com pescadores, marisqueiras e comunidades tradicionais.

O encontro reuniu pescadores, marisqueiras e lideranças comunitárias para discutir questões cruciais, tais como a contaminação, a supressão dos manguezais, a bioinvasão e a pesca fantasma. Durante as discussões, especialistas e representantes das comunidades compartilharam experiências e apresentaram soluções para enfrentar esses desafios.

De acordo com Carla Andrade, técnica do Inema, a deterioração dos manguezais afeta diretamente a reprodução de diversas espécies, como o caranguejo-uçá, elemento crucial para a manutenção do equilíbrio ecológico e para a economia local. “Os manguezais são berços naturais da vida marinha. A retirada de vegetação para ocupação desordenada e o descarte irregular de resíduos ameaçam esse ecossistema essencial”, alertou.

Moradores da região também manifestaram apreensão em relação aos perigos ocultos no mar. Damiana da Silva, pescadora local, destacou: “A gente que vive da pesca conhece bem a contaminação e as dificuldades enfrentadas diariamente, mas desconhece os riscos que se escondem nas profundezas. Para mim, foi uma honra receber vocês, que nos orientam sobre como preservar espécies que tanto nos beneficiam.”

Para Francisco, conhecido na região como Chico do Gelo e diretor de pesca do município de Valença, o encontro se mostra essencial, pois esclarece a importância de preservar as espécies durante o período de defeso. “Se não houver conservação, essas espécies podem se extinguir, afetando diretamente os pescadores e marisqueiros que delas dependem. Estamos aqui para disseminar esse conhecimento e garantir a continuidade dessa atividade”, afirmou.

Outro tema discutido foi a pesca fantasma, fenômeno que ocorre quando redes e apetrechos de pesca abandonados continuam capturando animais marinhos acidentalmente. Representantes de colônias de pescadores destacaram a relevância da educação ambiental e de programas de reciclagem para reduzir esse impacto.

Bioinvasão e novas ameaças

A bioinvasão foi um dos tópicos centrais abordados na roda de conversa, enfocando a introdução de espécies exóticas que colocam em risco a fauna e a flora locais. Alice Reis, oceanógrafa e coordenadora de gerenciamento costeiro da Sema, explicou que espécies como o coral-sol e o coral-mole já foram identificadas na Bahia e estão sendo monitoradas para evitar sua expansão. “Esses corais competem com as espécies nativas e prejudicam a interação entre peixes e recifes. Os peixes não reconhecem esses corais invasores e acabam perdendo seu habitat natural, afetando toda a cadeia ecológica”, alertou.

Outro ponto que gerou considerável apreensão foi o avanço do peixe-leão, espécie recentemente identificada na costa baiana. Esse peixe possui 18 espinhos venenosos, capazes de causar dor intensa, inflamação e reações alérgicas graves. “Quem lança e recolhe a rede muitas vezes não percebe o que está capturando. Mas esse peixe machuca!”, alertou Alice, recomendando aos pescadores que evitassem o contato direto e que não o devolvessem ao mar.

Além da bioinvasão, o encontro em Valença abordou ainda outros riscos para a zona costeira, tais como a contaminação, o desmatamento e a pesca predatória por meio de bomba e arrastão. Nos próximos dias, a Caravana do Defeso seguirá para Camamu (20) e Jaguaripe (21), ampliando o diálogo com as comunidades pesqueiras e promovendo ações de conscientização ambiental.

O envolvimento da comunidade é essencial para a proteção dos recursos naturais e para a construção de um futuro sustentável para a pesca na Bahia. Além do apoio direto, qualquer cidadão pode reforçar o combate à pesca ilegal por meio dos canais de denúncia do Inema: 0800 071 1400 (Disk Denúncia), atendendo temporariamente no número (71) 3510-0607, e também pelo e-mail: denuncia@inema.ba.gov.br.


Foto: Matheus Lemos/Ascom Inema

Galeria: