Pequenas no tamanho, gigantes na importância ecológica, as abelhas são responsáveis por grande parte da polinização das plantas utilizadas na alimentação humana. No Brasil, o Dia Nacional das Abelhas, celebrado nesta sexta-feira (3), é mais do que uma data simbólica: é uma oportunidade de reconhecer o papel vital desses insetos e, principalmente, de incentivar sua preservação.
Na Área de Proteção Ambiental (APA) Joanes-Ipitanga, essa missão tem nome: meliponicultura, a criação de abelhas sem ferrão. O projeto, iniciado em 2021 pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), já beneficia mais de 40 famílias em dez comunidades da região. A iniciativa une conservação ambiental, geração de renda e fortalecimento social, tendo como protagonista a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), espécie nativa ameaçada de extinção. O que começou com 12 famílias e 12 colônias hoje já alcança cerca de 350 colônias ativas, espalhando vida e transformação.
Idealizador do projeto, o gestor da APA, Geneci Braz, explica que a meliponicultura está totalmente alinhada aos objetivos da unidade de conservação, que incluem a proteção de mananciais hídricos e a preservação da vegetação. “Quando temos uma vegetação adequada e suficiente, a produção hídrica é fortalecida em qualidade e disponibilidade. As abelhas exercem um papel fundamental nesse processo: cada flor polinizada gera sementes e frutos que ajudam a perpetuar espécies e preservar a mata ciliar. Além disso, são componentes essenciais da fauna local e guardiãs da biodiversidade da unidade”, destacou.
Já para Pedro Cardoso, biólogo do Inema que participa do monitoramento do projeto, o impacto da iniciativa vai muito além da produção de mel e própolis. “O projeto não só gera renda, mas também atua na restauração ecológica e na valorização das comunidades. Muitas dessas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social, com baixa renda e escolaridade. Por isso, nosso trabalho inclui assistência técnica, cursos e acompanhamento contínuo, de forma a tornar o manejo das abelhas acessível e sustentável”, afirmou.
Histórias de transformação
Entre os beneficiados está o agricultor Roberto César Araújo, que há cerca de dois anos participa do projeto. Morador de uma área considerada degradada, ele encontrou na meliponicultura uma forma de recuperar o ambiente e melhorar a qualidade de vida. “Fiquei muito feliz quando tive a oportunidade de entrar nesse projeto. Eu já vinha tentando com outras entidades e não tinha dado certo. Com o Inema, graças a Deus, deu tudo certo”, contou.
Hoje, Roberto cuida de cerca de 20 colônias e já produz extrato de própolis, sonhando em chegar a 50 caixas. Mais do que o retorno financeiro, ele ressalta o valor ambiental e emocional da atividade. “Meu maior orgulho é que consegui colocar verde onde antes só tinha pedra. As abelhas me ajudaram a reflorestar minha área. Antes ninguém acreditava, diziam que aqui nada daria certo. Hoje eu já colho frutas, tenho pés de manga, cajá, acerola, laranja. A terra respondeu ao meu esforço e ao trabalho das abelhas”, relatou.
O meliponicultor também descreve a relação afetiva que criou com a atividade: “Quando chego aqui, esqueço dos meus problemas. Me envolvo no cuidado com as abelhas, na plantação das flores que elas gostam, e sinto que estou contribuindo para um planeta melhor. Faço isso pelos meus netos, para que eles tenham um futuro com mais natureza.”
Protagonismo das mulheres
Além dos benefícios ambientais e econômicos, o projeto também tem promovido transformações sociais profundas, especialmente no que diz respeito à atuação das mulheres nas comunidades. Pedro Cardoso aponta que, por se tratar de um manejo delicado, elas se destacam. “Entre os dez maiores produtores do projeto, sete ou oito são mulheres. Elas demonstram sensibilidade no trato com as colônias e muitas vezes assumem a liderança nas atividades. Além disso, percebemos efeitos positivos na autoestima, na valorização pessoal e no engajamento da comunidade. O projeto, portanto, une conservação ambiental, geração de renda e inclusão social.”
É o caso de Sandra Santana, conhecida como Loura, liderança do Quilombo do Dandá, agricultora e artesã. Para ela, a entrada no projeto foi uma oportunidade de se conectar ainda mais à natureza e fortalecer os laços comunitários. “Me sinto parte da APA, dentro dessa rotina de cuidado com a natureza e com tudo que a torna mais viva. As abelhas se tornaram parte da minha família, como se fossem crianças ao nosso redor, exigindo atenção, cuidado e carinho. Cada colmeia que cuido é também um aprendizado sobre respeito e coletividade”, contou.
Loura explica que começou com apenas uma colmeia e hoje já possui quatro, além de ter multiplicado colônias para vizinhos e companheiros da comunidade. “Fui doando, compartilhando, porque acredito que quanto mais pessoas cuidarem, mais forte será o nosso território. Hoje, além do consumo, vejo na meliponicultura a possibilidade de gerar renda, como já acontece com agricultores daqui que vendem o próprio mel. Mas, acima de tudo, cuidar das abelhas é cuidar da nossa saúde e do futuro da nossa comunidade”, destacou.
Multiplicação do saber e fortalecimento comunitário
Para Geneci, o engajamento das comunidades é um dos resultados mais significativos. “A participação ativa em cursos, congressos e eventos reforça a difusão da meliponicultura como ferramenta de geração de renda e proteção ambiental. Cada colônia formada contribui para maior polinização, aumento da produção agrícola e ampliação da biodiversidade local. Além disso, é uma atividade de fácil manejo, que pode ser conduzida por crianças, mulheres e idosos, e serve até como terapia, proporcionando bem-estar e conexão com a natureza.”
Pedro complementa que a metodologia do projeto incentiva a colaboração entre famílias. Cada participante recebe uma colônia inicial e, após o manejo correto, deve dividi-la com outro vizinho interessado. Esse processo garante que a criação de abelhas sem ferrão se multiplique, beneficiando mais famílias ao mesmo tempo em que fortalece o senso de comunidade.
Outro ponto relevante é a geração de renda. Além da produção de mel e própolis, a venda de colônias e a criação de produtos derivados, como cosméticos e sabonetes, ajudam a complementar os ganhos familiares. Segundo Geneci, o mel da uruçu-nordestina pode alcançar entre R$ 250 e R$ 300 o litro no mercado, tornando-se uma fonte econômica significativa para pequenos produtores.
Um legado para a biodiversidade
No aspecto ambiental, o projeto reforça a restauração de áreas degradadas e contribui para a preservação da Mata Atlântica. “Quanto mais conhecemos a grandiosidade das abelhas e o papel que elas exercem na natureza, mais entendemos a necessidade de preservá-las. São insetos fundamentais para a produção de alimentos, a conservação da biodiversidade e o equilíbrio ecológico”, concluiu Geneci.
Com a chegada da terceira etapa, o projeto da APA Joanes-Ipitanga se consolida como um exemplo de que é possível unir ciência, gestão pública e saber comunitário. Um caminho promissor para conservar as abelhas, restaurar ecossistemas e transformar vidas.