A Secretaria do Meio Ambiente (Sema) promoveu, na manhã desta terça-feira (21), uma reunião com representantes do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), das Universidades Federais da Bahia (UFBA) e de Alagoas (UFAL), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio/Abrolhos) e da Prefeitura de Maraú para discutir estratégias conjuntas de enfrentamento à presença do peixe-leão (Pterois volitans) no litoral baiano.
O encontro, conduzido pelo diretor de Políticas e Planejamento Ambiental da Sema, Tiago Porto, teve como foco o alinhamento de informações sobre o peixe-leão e a definição das estratégias mais adequadas para serem implementadas neste momento da bioinvasão deste peixe no Estado da Bahia. Segundo Porto, são necessárias ações transversais executadas pelos órgãos ambientais, universidades e setores de pesquisa e saúde para lidar com essa espécie invasora, detectada pela primeira vez na Bahia em fevereiro deste ano.
“Após o primeiro registro confirmado, em fevereiro deste ano, comunicamos às prefeituras dos municípios costeiros baianos e outros órgãos estaduais sobre a chegada da espécie, seus impactos conhecidos e riscos associados. Considerando a biologia do peixe-leão, é improvável que consigamos erradicar a espécie, mas precisamos agir de forma integrada na tentativa de controlar a invasão. A ideia é unir esforços de pesquisa, manejo, comunicação e capacitação para estabelecer uma estratégia efetiva de enfrentamento”, explicou Porto.
O peixe-leão é originário do Indo-Pacífico e representa uma séria ameaça aos ecossistemas marinhos, por seu alto potencial reprodutivo, ausência de predadores naturais e hábito alimentar voraz, que compromete populações nativas de peixes e crustáceos. Além do impacto ecológico, a espécie também oferece risco à saúde humana, já que possui espinhos venenosos capazes de causar acidentes graves.
Durante a reunião, o pesquisador Rodrigo Maia (UFBA), que vem acompanhando os registros na costa baiana, alertou para o caráter provavelmente irreversível da invasão e destacou a necessidade de adotar ações de controle e informação. “É pouco provável que a gente vença essa invasão, mas podemos reduzir seus impactos. Precisamos fortalecer a rede de comunicação, envolver pescadores e mergulhadores e pensar estratégias de manejo e registro adequadas”, pontuou.
A proposta de atuação conjunta envolve desde a criação de fluxos de recebimento e destinação dos espécimes capturados, até a capacitação de pescadores e mergulhadores sobre a captura segura do animal. A bióloga Sara Brito Alves, da Coordenação de Fauna do Inema, sugeriu a construção de um fluxograma operacional para orientar o que fazer ao encontrar o peixe-leão: “Nossas unidades regionais no litoral podem funcionar como pontos de entrega dos espécimes, seguindo orientações dos pesquisadores sobre o acondicionamento adequado para viabilizar as pesquisas científicas. Com isso, garantimos segurança, controle e apoio às pesquisas”, explicou.
Entre os encaminhamentos, também foi discutida a realização de caravanas educativas ao longo do litoral baiano, seminários regionais e oficinas sobre a construção de armadilhas de captura. “Estamos na Década dos Oceanos, e a bioinvasão é uma das principais causas de perda de biodiversidade. É fundamental que a sociedade entenda o que está acontecendo e que as instituições públicas atuem de forma articulada”, ressaltou Sara.
A oceanógrafa Mariana Fontoura, da Sema, informou que a bioinvasão pelo peixe-leão já vem sendo tratado nas ações da Caravana do Defeso, que percorre comunidades costeiras levando informações sobre o período de reprodução das espécies marinhas. “Durante nossas atividades, temos falado sobre o peixe-leão, explicando os cuidados que o pescador deve ter e orientando sobre o abate do animal quando for capturado. Agora, precisamos consolidar o fluxo de comunicação e de destinação desses espécimes”, afirmou.
A parceria com a Universidade Federal da Bahia foi outro ponto de destaque da reunião. As pesquisadoras Priscila Camelier, Ellen Monteiro e Ana Carolina Almeida, apresentaram propostas de mapeamento genético e rastreamento da invasão, com base nas amostras coletadas. Segundo elas, o material biológico poderá subsidiar pesquisas científicas e fortalecer o banco nacional de dados sobre o peixe-leão.
Para o professor Francisco Barros, também da UFBA, é importante associar as ações estruturantes a medidas imediatas de comunicação. “Um folheto simples, com informações sobre o peixe-leão, os riscos que ele representa e como proceder ao encontrá-lo, pode fazer diferença nesse momento inicial”, sugeriu.
O grupo também discutiu a necessidade de uniformizar as informações repassadas ao público, evitando desinformação e fake news, além de criar materiais técnicos e educativos voltados especialmente para pescadores, operadoras de mergulho e comunidades litorâneas.
Ao final do encontro, Tiago Porto destacou a importância da integração interinstitucional. “O enfrentamento dessa invasão biológica depende da colaboração entre órgãos ambientais, universidades, setor pesqueiro, prefeituras e sociedade civil. Nossa prioridade é definir o que fazer, como fazer e para onde encaminhar cada espécime capturado, garantindo segurança e base científica às nossas ações”, concluiu.