Comunidade e pesquisadores removem 1,1 tonelada de medusas exóticas em Itaparica

28/09/2025
Medusa

Mesmo sob chuva e vento forte, a comunidade de Itaparica se uniu neste sábado (23) a pesquisadores e órgãos ambientais para a terceira etapa da ação de pesquisa e manejo da medusa Cassiopea andromeda, espécie marinha exótica invasora que ameaça a biodiversidade e atividades tradicionais como a pesca e a mariscagem na Baía de Todos-os-Santos (BTS). A iniciativa resultou na retirada de cerca de 1,1 tonelada (1.100 kg) de medusas em um braço de manguezal do município.

A atividade integra a pesquisa científica coordenada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com apoio da Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema), da Prefeitura de Itaparica e de voluntários locais. Com essa etapa, o total removido desde julho chega a quase 4 toneladas.

Segundo a oceanógrafa da Sema, Mariana Fontoura, a força da comunidade foi decisiva para o avanço das ações. Ela ressaltou que, apesar das condições climáticas adversas, o esforço coletivo permitiu um balanço positivo.

“Hoje foi um dia de muito vento e muita chuva, mas também de muito trabalho. Com o apoio da comunidade, conseguimos remover essa quantidade de medusas que impacta tanto a biodiversidade quanto as atividades locais”, afirmou.

Mariana também detalhou a organização do mutirão. “Nas nossas ações, a gente sempre divide em equipes. Uma parte fica dedicada à pesquisa, fazendo a contagem e registrando os dados para o estudo científico, e a outra se concentra na remoção direta das medusas. Algumas pessoas entram na água com o corrupixel para capturar os animais, outras ajudam puxando as redes, e temos ainda a equipe que faz a pesagem e o registro do material retirado. Cada papel é fundamental para que o processo funcione”, explicou.

Ela reforçou a importância do uso de equipamentos de proteção individual (EPI), como jardineira, botas, luvas e óculos para execução da atividade, já que o contato com o animal pode causar irritação cutânea

Representantes da comunidade enfatizaram o caráter coletivo da operação e a necessidade de manter o engajamento. Parceiro das ações desde a primeira visita técnica da Sema, Felipe Peixoto Brito, presidente fundador da instituição Maré de Março, em Itaparica, reforçou o convite para as próximas mobilizações.

“Esse problema é sério, um problema grave que, caso se espalhe por outras praias, pode comprometer o turismo não só aqui em Itaparica, mas em todo o estado da Bahia, atingindo até os nossos principais cartões-postais. Em breve teremos uma nova data e esperamos contar com a presença de comerciantes, estudantes, moradores, enfim, de todo mundo que se importa com o meio ambiente. Essa responsabilidade é de todos nós. Ainda falta muita medusa para tirar daqui, porque elas se reproduzem de forma muito rápida e a comunidade sozinha não consegue dar conta. Precisamos de mais apoio. Mas, ao mesmo tempo, é bonito ver a união e a força de todos que já estão participando. Isso mostra que, juntos, temos condições de enfrentar esse desafio”, destacou.

A ação contou também com técnicos de outras regiões afetadas, como a Península de Maraú. O biólogo Arthur Afeitos Silva, da Secretaria de Meio Ambiente de Maraú, explicou que participou da ação a fim de aprender a metodologia e o manejo de retirada, e que a experiência vai virar documento científico para aplicar um protocolo semelhante no município.

“Vim acompanhar e entender como acontece a retirada desses animais. Aqui tive contato com a metodologia já desenvolvida, orientada pela equipe técnica da Sema e do Inema, e pude ver de perto como funciona cada etapa. A gente observou desde o arrasto com rede até a retirada com o corrupixel, a pesagem e a medição das medusas, sempre seguindo os protocolos de pesquisa. Também foi importante conhecer os equipamentos de proteção individual, porque se trata de um animal que oferece risco ao contato direto. Saio daqui com aprendizados fundamentais e com a certeza de que esse tipo de intercâmbio fortalece o enfrentamento a esse problema em todo o estado”, afirmou.

Ao final da ação, Mariana Fontoura resumiu em suas palavras o espírito coletivo que tem sustentado as atividades em Itaparica. “O mais bonito de ver é que, mesmo com chuva e vento, a comunidade não deixou de comparecer. A cada ação, percebemos que as pessoas estão mais envolvidas, entendendo que esse é um problema coletivo e que a solução depende da união entre ciência e sociedade. É isso que dá força ao nosso trabalho e que faz a diferença no resultado que alcançamos”, salientou.

A Cassiopea andromeda, conhecida como “medusa invertida”, tende a formar explosões populacionais em águas rasas e de baixa circulação, como estuários e manguezais. Identificada inicialmente pela população, a ocorrência foi confirmada durante uma visita técnica no Dia Mundial dos Oceanos, em 8 de junho. Desde então, as ações têm combinado pesquisa, monitoramento e mutirões de remoção.

A metodologia inclui registro, pesagem e análise científica das amostras, com o objetivo de avaliar se a erradicação local é viável e de construir protocolos de manejo replicáveis para outras áreas afetadas, compondo um banco de dados científico inédito sobre a espécie no Brasil. O aprendizado já está servindo como referência para outras localidades da Bahia.

Tags
Bioinvasão na BTS
Galeria: