Bahia amplia proteção ao patrimônio cultural com tombamento de terreiros de diferentes tradições religiosas

Publicado: 08/10/2026 Última atualização: 08/10/2026 às 18:06
Terreiro Kalé Bokun
Fernando Barbosa/IPAC

Omo Ilê Agboulá, Kalé Bokún, Ilê Axé Ojú Onirê e Terreiro do Bogum representam as tradições Egúngun, Ijexá, Ketu e Jeje-Mahi; em julho, Estado também reconheceu dois importantes bens arquitetônicos

Quatro terreiros de candomblé de diferentes tradições religiosas passaram a integrar, em julho, o conjunto de bens protegidos pelo Estado da Bahia. Os tombamentos reconhecem a importância histórica, cultural, religiosa e simbólica do Omo Ilê Agboulá, do Ilê Asé Kalé Bokún, do Ilê Axé Ojú Onirê e do Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó, referências, respectivamente, das tradições Egúngun, Ijexá, Ketu e Jeje-Mahi. No mesmo mês, também foram tombados o antigo Grupo Escolar J. J. Seabra, atual sede do Museu Regional de Arte, em Feira de Santana, e o edifício da Câmara de Vereadores de Valença.

Os tombamentos foram oficializados por meio de decretos publicados no Diário Oficial do Estado e resultam de estudos e propostas técnicas elaborados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), e aprovados pelo Conselho Estadual de Cultura, conforme a legislação estadual de proteção ao patrimônio cultural.

Entre os bens reconhecidos estão espaços de referência para diferentes tradições religiosas de matriz africana. Na Ilha de Itaparica, o Omo Ilê Agboulá é reconhecido como uma das principais referências do culto aos egúngun no Brasil e como a mais antiga comunidade dedicada ao culto dos ancestrais em funcionamento contínuo no país. O terreiro já havia sido reconhecido como Patrimônio Imaterial da Bahia e, em 2015, e recebeu também o reconhecimento como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Com o novo tombamento, passa a integrar também o Livro de Tombamento de Bens Imóveis do Estado.

Em Salvador, o Ilê Asé Kalé Bokún, localizado no bairro de Plataforma, é considerado uma importante referência da tradição ijexá no Brasil. Criado pelo babalorixá Severiano Santana Porto, possui registros oficiais que remontam a 1933, embora suas origens sejam associadas ao final do século XIX. A comunidade mantém práticas rituais como o Otun, cerimônia de renovação do axé, e o culto às gueledés, tradição ligada ao poder ancestral feminino e apontada como em risco de desaparecimento no Brasil.

Também em julho foi tombado o Ilê Axé Ojú Onirê, em Santo Amaro, terreiro de nação Ketu fundado por Pai Pote. O reconhecimento considera o conjunto formado pelas edificações, espaços naturais e práticas rituais do território, incluindo barracões, casas de orixás, mata sagrada, riacho e árvores consagradas. O terreiro também se destaca por sua atuação na preservação das religiões de matriz africana, na valorização do Bembé do Mercado, no enfrentamento ao racismo religioso e na promoção da cultura afro-brasileira.

Fechando o conjunto de terreiros tombados no mês, o Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó, conhecido como Terreiro do Bogum, foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Bahia. Localizado no Engenho Velho da Federação, em Salvador, o espaço é uma das mais importantes referências da tradição Jeje-Mahi no Brasil. Fundado no século XVIII, por volta de 1719, preserva saberes, práticas, rituais e valores associados aos povos Fõ e Mahi, originários da região do atual Benim, na África Ocidental.

A trajetória do Bogum também está relacionada à história da população negra na Bahia. Pesquisas históricas apontam sua ligação com a Revolta dos Malês, em 1835, e sua importância para a formação do bairro do Engenho Velho da Federação. Ao longo de mais de três séculos, o terreiro manteve rituais, celebrações, conhecimentos ancestrais e a língua litúrgica éwé-fon.

Patrimônio arquitetônico

Câmara Municipal de Valença
Prédio da Câmara Municipal de Valença está entre os bens tombados. Foto: divulgação

Além dos terreiros, os tombamentos realizados contemplaram dois importantes exemplares do patrimônio arquitetônico baiano. Em Feira de Santana, o antigo Grupo Escolar J. J. Seabra, atual sede do Museu Regional de Arte, passa a integrar o Livro do Tombo Estadual. Inaugurado em 1916, como parte da política de expansão da educação pública no Estado, o edifício é considerado um dos principais exemplares da arquitetura eclética classicizante no interior da Bahia. Entre seus elementos de destaque estão a cúpula central, a escadaria em mármore branco, a composição simétrica das fachadas e o elevado grau de preservação de suas características originais.

Em Valença, o edifício da Câmara de Vereadores também foi incorporado ao patrimônio protegido pelo Estado. Construído em 1849 como residência da família Sena Madureira, o imóvel hospedou o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina durante visita ao município, em 1860. Desde o final do século XIX, o prédio desempenha funções públicas, tendo sediado a Casa de Câmara e Cadeia, o Paço Municipal e a Biblioteca Municipal, antes de abrigar o Legislativo valenciano. O imóvel preserva elementos neoclássicos e ecléticos e possui importante inserção na paisagem urbana às margens do Rio Una.

Com os seis novos tombamentos, o Estado amplia o conjunto de bens protegidos pela legislação estadual e reforça o reconhecimento de diferentes dimensões da memória e da identidade baianas. O tombamento é um dos principais instrumentos de preservação do patrimônio cultural, que busca assegurar a conservação das características essenciais dos bens protegidos, contribuindo para a salvaguarda da história, da diversidade cultural e da memória coletiva da Bahia.

Ascom IPAC

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Tombamento: Bens culturais