Tráfico de animais e conservação da fauna são temas de debate com o Inema na UCSAL

24/10/2025
UCSAL
Acervo Inema

O tráfico de animais silvestres é uma das principais ameaças à biodiversidade brasileira e figura como o terceiro maior comércio ilegal do país, atrás apenas do tráfico de drogas e de armas. Estima-se que cerca de 38 milhões de animais sejam retirados da natureza anualmente, movimentando aproximadamente R$ 3 bilhões por ano. Desse total, 90% não sobrevivem ao processo de captura e transporte. A Bahia, pela sua diversidade de ecossistemas e espécies, é uma das rotas de origem mais visadas por traficantes.

Esses dados alarmantes marcaram o início da mesa-redonda “Tráfico de animais silvestres e a conservação das biodiversidades: desafios e perspectivas”, realizada nesta sexta-feira (24), na Universidade Católica do Salvador (UCSAL), dentro da programação da Semana de Mobilização Científica. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) foi convidado para participar do encontro, representado pelas biólogas Marianna Pinho e Sara Alves, e pela médica-veterinária Marta Calasans, gestora do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Salvador.

Durante o debate, as especialistas apresentaram dados, experiências e reflexões sobre os efeitos do tráfico, os esforços de fiscalização e o processo de reabilitação da fauna silvestre. Para a bióloga Sara, o tráfico é apenas uma das faces de uma crise ambiental mais ampla.

“A destruição e a fragmentação dos habitats são as maiores causas de ameaça às espécies. O tráfico vem logo em seguida, movimentando bilhões e impulsionado por vaidade e desejo de posse. Quanto mais raro e bonito o animal, mais alto é o seu valor”, destacou.

Sara também lembrou de um caso recente que ilustra a gravidade da situação: um homem foi flagrado no aeroporto de Guarulhos tentando embarcar com 42 ovos de arara-vermelha escondidos sob a roupa. “Esses ovos seriam vendidos por até 8 mil euros cada. Mesmo sabendo dos riscos, os traficantes insistem, porque o lucro compensa, enquanto a natureza perde vidas e equilíbrio”, completou.

A bióloga Marianna apresentou o trabalho do Inema na recepção, reabilitação e soltura de animais silvestres, destacando os diferentes caminhos de entrada, como resgates, apreensões e entregas voluntárias, e a importância do incentivo à entrega sem penalização.

“A entrega voluntária permite que pessoas que mantêm animais silvestres de forma irregular possam fazer a entrega do animal aos órgãos competentes sem sofrer penalidades, dando uma chance de o animal voltar à natureza”, explicou.

Marianna também apresentou dados do Cetas de Salvador e Cruz das Almas, que juntos já receberam mais de 58 mil animais, com cerca de 494 solturas por mês. As aves continuam sendo o grupo mais apreendido, reflexo de uma cultura antiga de manter pássaros em cativeiro, especialmente no Nordeste. “A cada animal reabilitado e devolvido à natureza, reforçamos o compromisso com a conservação e com a conscientização da sociedade”, completou.

Encerrando a apresentação, a veterinária Marta Calasans compartilhou histórias comoventes de reabilitação e cuidado, mostrando o lado mais sensível do trabalho desenvolvido nos centros. Um dos casos foi o de uma onça-parda vítima de queimaduras que, após meses de tratamento, conseguiu se recuperar parcialmente, embora não pudesse mais retornar à natureza.

“A reabilitação exige tempo, dedicação e vínculo. Muitos dos animais chegam debilitados, com traumas ou mutilações, e parte deles não tem condições de soltura. O que nos move é garantir que cada um receba cuidado, respeito e dignidade”, relatou emocionada.

Na formação da mesa, as especialistas reforçaram a importância da integração entre órgãos ambientais, instituições de ensino e a sociedade civil para fortalecer o combate ao tráfico de animais e promover a conservação da biodiversidade baiana.

“Mais do que punir o crime, é preciso educar e sensibilizar. O tráfico só existe porque há demanda. Quando as pessoas compreendem que animal silvestre pertence à natureza, damos um passo real em defesa da vida”, concluiu Marianna.

A professora Kátia Benati, do curso de Biologia da UCSAL e responsável pelo convite ao Inema, agradeceu às especialistas e destacou a relevância do momento para a formação dos estudantes e para o fortalecimento das parcerias entre academia e gestão ambiental.

“É muito importante que nossos alunos se aproximem de experiências reais de conservação e entendam a dimensão do tráfico de animais. Esse tipo de diálogo amplia o olhar científico e humano de quem está se formando para atuar na área ambiental”, afirmou a docente, que também anunciou a intenção de desenvolver novas parcerias institucionais entre a universidade e o Inema voltadas à pesquisa biológica e à educação ambiental.

Fonte
Valquiria Siqueira - Ascom Sema/Inema
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Tráfico de animais silvestres
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