Com o avanço das mudanças climáticas e o aumento da frequência de eventos extremos, especialistas, gestores públicos, pesquisadores e brigadistas se reuniram nesta quarta-feira (11), em Salvador, para discutir estratégias de prevenção, monitoramento e combate ao fogo durante o V Seminário Internacional sobre Prevenção, Monitoramento e Combate aos Incêndios Florestais da Bahia.
Realizado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado (Sema), em parceria com a Bracell Bahia e a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), o encontro se consolidou como o maior seminário do Brasil realizado de forma contínua sobre o tema. Desde 2019, o evento reúne especialistas nacionais e internacionais para compartilhar experiências, pesquisas e soluções voltadas ao enfrentamento do fogo em diferentes biomas.
A edição deste ano tem como tema “Desafios na Gestão dos Incêndios Florestais e Perspectivas Climáticas para as Futuras Gerações” e promove, ao longo de dois dias, debates sobre governança do fogo, monitoramento climático, participação comunitária, inovação tecnológica e o papel das brigadas voluntárias e institucionais no enfrentamento das ocorrências.
Representando o secretário do Meio Ambiente, Eduardo Mendonça Sodré Martins, a chefe de gabinete da Sema e presidente do Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, Daniella Fernandes, destacou que a integração entre os órgãos estaduais tem sido fundamental para aprimorar as estratégias de prevenção e resposta no território baiano.
“O Bahia Sem Fogo é um programa que vem quebrando paradigmas justamente por ser baseado na ação integrada entre os órgãos do Estado, municípios e brigadas voluntárias. Os incêndios florestais não podem ser combatidos por um único ente. É uma ação que depende da sociedade, dos brigadistas, do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil, da Sema e do Inema”, afirmou.
Entre as iniciativas apresentadas pela gestora, a Caravana Bahia Sem Fogo já mobilizou mais de 9 mil pessoas em 38 municípios, com ações de educação ambiental. Segundo Daniella, ao longo deste ano a Sema também deve distribuir cerca de 6 mil equipamentos para regiões e municípios com maior incidência de incêndios, fortalecendo a atuação das brigadas voluntárias.
Também presente na abertura do seminário, o diretor de Fiscalização do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Miguel Calmon, que no ato representou o diretor-geral do órgão, Eduardo Topázio, ressaltou a importância da integração entre instituições e do fortalecimento das ações preventivas diante do cenário de mudanças climáticas. “O combate aos incêndios florestais exige um esforço enorme das equipes em campo. Por isso, eventos como este são fundamentais para integrar ações, compartilhar experiências e avançar no uso de tecnologias”, destacou o diretor.
Cenário dos incêndios florestais na Bahia
Na Bahia, as ocorrências de incêndio estão associadas principalmente ao período de estiagem e à ação humana, seja por queimadas para manejo agrícola ou por práticas irregulares de uso do fogo. Regiões como o Oeste baiano e a Chapada Diamantina historicamente concentram maior incidência durante os períodos mais secos.
Nos últimos anos, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontaram avanços nas estratégias de prevenção no estado, com redução de cerca de 33% nos focos de calor em 2024, na comparação com 2023. Levantamento da Sema também indica que a Bahia reduziu 64% dos gastos com combate até 2025, reflexo do fortalecimento das ações preventivas e da integração entre instituições. Nesse contexto, a atuação das equipes de resposta e das brigadas voluntárias tem sido considerada essencial para reduzir os impactos ambientais e sociais provocados pelo fogo.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA), coronel Aloísio Mascarenhas, afirmou que o Corpo de Bombeiros também tem intensificado investimentos no enfrentamento aos incêndios florestais e na formação de brigadas voluntárias no interior do estado. “Somente neste ano, o Corpo de Bombeiros investiu cerca de R$ 25 milhões em ações relacionadas aos incêndios florestais, desde a prevenção até o combate. Também formamos brigadistas voluntários em diversos municípios”, descreveu o coronel.
Emergência climática e seus impactos
Durante o seminário, o climatologista e catedrático do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Carlos Afonso Nobre, alertou para o agravamento da emergência climática global e os riscos de o planeta ultrapassar pontos de não retorno em diferentes biomas. Segundo o pesquisador, o aumento da concentração de gases de efeito estufa tem ampliado a quantidade de energia na atmosfera, intensificando eventos extremos como ondas de calor, secas prolongadas e chuvas intensas.
“A ciência já identifica cerca de 25 pontos de não retorno no sistema climático. No Brasil, biomas como o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e a Amazônia estão cada vez mais próximos desses limites, o que pode levar a transformações irreversíveis nos ecossistemas”, declarou Afonso.
Durante a apresentação, Nobre destacou que estudos recentes indicam uma aceleração do aquecimento global e apontam a possibilidade de a temperatura média do planeta ultrapassar 2,5 °C até o fim do século, cenário considerado altamente preocupante pela comunidade científica. Ele também chamou atenção para os impactos diretos no país. Dados apresentados indicam que cerca de 48% da Caatinga já foi desmatada, o que aumenta o risco de desertificação em parte do Nordeste. O Cerrado, por sua vez, enfrenta forte pressão da expansão agropecuária e do avanço do desmatamento.
Segundo o cientista, eventos extremos recentes, como grandes enchentes e secas, tendem a se tornar mais frequentes e intensos, reforçando a necessidade de ampliar ações de mitigação e adaptação climática, com redução do desmatamento, restauração florestal e expansão de energias renováveis.
Cooperação entre governo, ciência e setor produtivo
Um dos destaques do seminário do Programa Bahia Sem Fogo é o diálogo constante entre diferentes setores envolvidos na gestão do território e na prevenção de incêndios. O evento reúne representantes de órgãos ambientais, instituições de pesquisa, brigadas comunitárias e empresas que desenvolvem programas de monitoramento e prevenção em áreas produtivas e florestais.
“Participar desse debate é uma oportunidade de compartilhar experiências e reforçar que o combate aos incêndios florestais não se faz apenas com monitoramento e resposta rápida, mas principalmente com prevenção. Quando informação, capacitação e mobilização social caminham juntas, conseguimos reduzir riscos, proteger o meio ambiente e preservar as florestas para as próximas gerações”, assegurou o gerente sênior de Operações Florestais da Bracell na Bahia, João Fernando Silva.
A programação do seminário segue até esta quarta-feira (12), com painéis que abordam desde governança pública na gestão do fogo até experiências internacionais, o papel das brigadas voluntárias e o uso de novas tecnologias no monitoramento e prevenção de incêndios.
[Clique AQUI para conferir a programação!]
Programa Bahia Sem Fogo
Criado em 2010 e coordenado pela Sema, o Programa Bahia Sem Fogo articula ações de prevenção, monitoramento, fiscalização e combate aos incêndios florestais em todo o território baiano. A iniciativa reúne diferentes órgãos do Governo do Estado em uma estratégia integrada, incluindo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), a Casa Militar do Governador, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a Secretaria da Saúde (Sesab), a Casa Civil, a Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental (Coppa), a Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia (Sudec) e o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA).