Como parte das celebrações do Novembro Negro, a Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) promoveu, na tarde da última terça-feira (19), uma nova edição do projeto “Conversando com o Autor”, reunindo nomes de destaque na literatura negra. O evento ocorreu no Auditório Paulo Spínola, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), e trouxe diálogos profundos sobre ancestralidade, espiritualidade e o papel da literatura na promoção da equidade racial.
Organizado pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento da PGE, com o apoio do Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade (CEGRD), o encontro contou com a participação de Bas’lele Malomalo, filósofo congolês autor de Filosofia do Ntu, e Ana Fátima Cruz dos Santos, poetisa e contista baiana, finalista do Prêmio Jabuti 2022 e referência em literatura infantil e afro-brasileira. “Com esta edição, o projeto ‘Conversando com o Autor’ reafirma seu papel como plataforma de valorização das culturas minoritárias, promovendo diálogos que ampliam as vozes de autores e fortalecem a construção de uma sociedade mais diversa e equitativa”, afirmou a procuradora do estado, Fabiana Barretto, que apresentou os convidados.
Abrindo o evento, o procurador do estado Ailton Cardozo, que também mediou o diálogo, questionou a relevância da espiritualidade, inerente à literatura negra, como ferramenta de transformação social. Ele leu o poema Macumba, de Trindade, para introduzir o tema. "Noite de Yemanjá. Negro come acaçá. Noite de Yemanjá. Filha de Nanan. Negro come acaçá. Veste seu branco abebé. Toca o águe, o caxixi, o agogô, o gã, o engona, o ilu, o lê, o roncó, o run, o rumpi. Negro pula. Negro dança. Negro bebe. Negro canta. Negro vadia. Noite e dia. Sem parar. Pro corpo de Yemanjá. Pros cabelos de Obá. Do Calunga. Do mar”.
Bas’lele Malomalo trouxe à discussão a importância da filosofia africana e sua conexão com a natureza e a espiritualidade, uma perspectiva que tem relação com a bioepistemologia, um conceito que destaca os saberes que emergem da interação entre corpo e ambiente. "A espiritualidade é o que fundamenta o meu livro, mas enquanto ciência, não religião. Ntu significa força vital, e a civilização africana se baseia nos princípios da natureza", explicou.
Ana Fátima Cruz dos Santos destacou sua trajetória literária marcada por um compromisso com a valorização da cultura negra e da memória ancestral. "O Novembro Negro é especial porque celebra nossa resistência, mas também nos lembra da luta por reconhecimento", disse. A autora compartilhou sua experiência de crescimento em um quilombo urbano em Pau da Lima e ressaltou a importância de uma educação antirracista, evocando a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira.
Sobre suas obras, Ana Fátima apontou como a literatura infantil pode transformar a percepção das crianças negras sobre si mesmas: "Na minha primeira obra, As tranças de minha mãe, quis trazer uma literatura negra em que as crianças pudessem se ver de forma positiva. Ainda há muito a ser feito para que a literatura negra seja reconhecida, mas acredito no poder das histórias para resgatar memórias e construir autoestima", destacou.
Em seu terceiro livro, Os dengos na moringa de voinha (2023), a autora quis falar de sua família, de sua avó Marina, que ensinou a cultura da moringa, de compartilhar a água, da arte do fuxico, do legado dos ancestrais. “Essa literatura foi bem aceita, e tem sido muito adotada por falar da memória da casa, o acionador das memórias. A Escola entendeu que falar da ancestralidade é falar do nosso cotidiano também, o que levou a Revista Crescer a reconhecer este livro como um dos 30 melhores livros infantis do ano de 2024”, ressaltou.
Com cerca de 60 servidores presentes, o evento foi mais do que um debate literário: foi um espaço de celebração e resistência. A participação dos convidados trouxe uma perspectiva rica e necessária sobre como a arte pode atuar como ponte para a transformação social. “Não há recurso melhor para a decolonialidade do que a arte”, afirmou Cardozo, ao encerrar a tarde de reflexões.