Em homenagem ao Julho das Pretas, mês dedicado à celebração da luta e resistência das mulheres negras na América Latina e no Caribe, a Procuradoria Geral do Estado (PGE-BA), por meio do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento (CEA), promoveu, nesta sexta-feira (25), a Roda de Conversa “Saúde da Mulher Negra”. O evento, realizado no Auditório Paulo Spínola, sede da PGE, foi aberto ao público e reuniu profissionais de referência para debater os impactos do racismo estrutural e institucional sobre a saúde da mulher negra.
Com mediação da procuradora do Estado Maristela Barbosa, o encontro contou com a participação da médica Hadassa Priscila da Silva Barros, especialista em cuidados com a pele negra; da psiquiatra Melina Teixeira, fundadora do primeiro consultório digital de psiquiatria voltado à saúde mental de mulheres; e da assistente social Maria Inês da Silva Barbosa, doutora em Saúde Pública pela USP, com pesquisa sobre racismo em saúde.
Na abertura do evento, Maristela abordou o racismo institucional presente no sistema de saúde e destacou a importância de reconhecer suas diferentes formas de manifestação. Segundo ela, o racismo não está apenas nas barreiras de entrada das pessoas negras na universidade ou nos serviços de saúde, mas também nas dificuldades enfrentadas para que essas pessoas permaneçam e avancem nessas estruturas. A procuradora ressaltou que esse debate precisa ser aprofundado e sugeriu que mulheres negras compartilhem suas vivências, especialmente no que se refere aos desafios enfrentados ao longo de seus processos de formação e atuação profissional.
A médica Hadassa Barros relembrou sua trajetória iniciada em 1998, em Ribeirão Preto, como a única estudante negra em um ambiente universitário majoritariamente branco. Ela compartilhou os impactos do racismo vividos durante a formação e destacou a importância da representatividade. Ao se mudar para Salvador, afirmou ter se sentido finalmente representada, o que fortaleceu sua identidade e autoestima. Ressaltou, ainda, que o racismo é uma ferida aberta e constante, e que é essencial falar sobre isso e ocupar todos os espaços.
Hadassa também pontuou as limitações do ensino médico em relação às especificidades da pele negra. Destacou que há poucos artigos científicos sobre o tema, o que dificulta diagnósticos e tratamentos adequados. Para oferecer um atendimento mais qualificado a pessoas negras e indígenas, precisou buscar conhecimento por conta própria, já que os currículos acadêmicos negligenciam essas realidades. Explicou que, em muitos casos, há indicações equivocadas de tratamentos dermatológicos, como o uso inadequado de ácidos que podem provocar manchas em peles negras, além da ausência de atenção à maior predisposição a queloides. Segundo ela, a falta de preparo pode não apenas comprometer o tratamento, mas também agravar a condição clínica, reforçando a importância de uma formação médica mais diversa e comprometida com a equidade racial.
A doutora Maria Inês da Silva Barbosa trouxe uma análise sobre os efeitos psicológicos e físicos do racismo no cotidiano das mulheres negras. Ela ressaltou que as pessoas negras precisam saber que podem ocupar qualquer lugar. Além disso, destacou que o racismo impacta diretamente a forma como o atendimento é prestado no sistema de saúde. Segundo Maria Inês, dentro da sociedade patriarcal e heteronormativa em que vivemos, esses fatores acabam interferindo no profissional que está atendendo, o que pode ocasionar uma “morte social”. Isso acontece porque o atendimento passa a ser condicionado a um padrão que não dá atenção especial às especificidades dos casos das pessoas negras. É justamente aí que o racismo opera, quando se percebe a realidade da sociedade em que vivemos e os efeitos desse padrão na saúde da população negra.
Ela ressaltou a existência, no âmbito da saúde das pessoas negras, de um indicador chamado “estado de alerta”, explicando que pessoas negras vivem constantemente sob essa condição. Citou como exemplo as mães negras, que permanecem em vigília enquanto os filhos estão na rua, temendo por sua segurança - uma realidade que não costuma afetar mães brancas. Essa tensão contínua tem reflexos diretos na saúde, especialmente nos níveis de pressão arterial, e evidencia como o racismo opera silenciosamente, produzindo desigualdades em cada detalhe da vida dessa população e desencadeando impactos graves em seu bem-estar físico e mental.
A psiquiatra Melina Teixeira compartilhou como o apoio familiar foi decisivo para sua trajetória. Vinda de uma família preta de classe média, recebeu incentivo constante dos pais, o que contribuiu para o fortalecimento de sua autoestima. Ingressou na faculdade de Medicina nos primeiros anos da política de cotas, quando ainda era raro ver mulheres negras ocupando esses espaços. Relatou ter vivido situações marcantes, como a abordagem emocionada de uma família que, ao vê-la no estágio hospitalar, expressou orgulho por finalmente serem atendidos por uma médica negra. Segundo ela, muitas mulheres negras, por falta de referências e incentivo, não se viam cursando Medicina e acabavam optando por outras áreas, como Enfermagem ou Fisioterapia, retomando o sonho da carreira médica apenas mais tarde.
A Roda de Conversa evidenciou os impactos concretos do racismo na saúde da mulher negra e reforçou a necessidade de transformar práticas e estruturas, tanto na formação acadêmica quanto nos serviços públicos.
A iniciativa está alinhada à missão da PGE-BA de oferecer soluções jurídicas eficazes que viabilizem e defendam as políticas públicas em benefício da população. Reflete, ainda, os valores da instituição — como ética e integridade, compromisso com a sociedade e com o cidadão, valorização dos servidores, diversidade, equidade e inclusão.