A programação do Novembro Negro da Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) teve seu encerramento marcado por uma tarde de arte, reflexão e resistência. Nesta quinta-feira (27), o Auditório Paulo Spínola recebeu a artista, cantora e pesquisadora Ana Mametto para a palestra musicada “Pombagira – Entidade Silenciada”, promovida pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento (CEA), alinhada à Política de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade da instituição.
A abertura ficou a cargo do procurador do Estado Adriano Ferreira, que destacou a potência simbólica da figura da Pombagira. Em seu discurso, ele lembrou que essa representação feminina, ao longo da história, teve sua autonomia e força distorcidas e silenciadas. “A beleza desse momento reside na palavra que nos guia hoje: a voz. Por vezes, a história nos ensinou o perigoso ofício de silenciar. Silenciar histórias, identidades, complexidades e a religiosidade. Hoje somos convidados a refletir sobre uma figura que foi historicamente enquadrada e distorcida”, afirmou.
Em seguida, acompanhada pelo músico, arranjador, diretor e produtor musical, Yacoce Simoes, Mametto deu início ao evento entoando o ponto de umbanda “Eu Abro a Nossa Gira”, conduzindo o público para um ambiente de acolhimento. Ao se apresentar, afirmou: “Eu sou Ana Mametto. Sou cantora, jornalista, escritora... Eu sou o que eu quiser ser”. A partir daí, a artista abriu caminho para uma experiência que uniu música, poesia, narrativa oral e pesquisa.
A palestra levou a plateia a um mergulho profundo nos territórios da ancestralidade, das religiões de matriz africana e da feminilidade negra, espaços historicamente apagados ou estigmatizados. Com firmeza e sensibilidade, Mametto provocou reflexões sobre as razões que levaram a figura da Pombagira a ser temida e demonizada. Segundo ela, a falta de informação e de conhecimento é parte central que alimenta esse processo, que atravessa séculos e se relaciona ao controle do corpo e da liberdade das mulheres em sociedades patriarcais.
Ao apresentar dados e estudos, a artista ressaltou que, em diferentes tradições religiosas, mulheres foram enquadradas como exemplos a não serem seguidos, como forma de impedir que sua força se tornasse referência. “O processo de demonização está associado ao apagamento da liberdade feminina”, explicou. Sua proposta, contudo, não é converter crenças, mas promover justiça diante das injustiças impostas pela intolerância religiosa, que historicamente castrou não apenas práticas de fé, mas também as vozes e existências de inúmeras mulheres.
Entre os momentos mais marcantes da tarde, destacou-se a frase de Mametto que ressoou no auditório: “Pombagira traz o amor de volta. Sim, mas não o amor de um homem e de uma mulher; ela traz o seu amor-próprio de volta.”
A atividade ressaltou o empenho da PGE-BA com a promoção de ambientes inclusivos, plurais e acessíveis. No Novembro Negro, cada gesto se torna memória e cada palavra projeta futuro - e a palestra de Ana Mametto encerrou o mês com um convite à escuta, à consciência e à valorização das vozes historicamente silenciadas.