1ª Feira Literária movimenta a PGE-BA e celebra a força da palavra

05/12/2025

Com roda de conversa, Feirinha de Troca de Livros, Sarau Literário e palestra, evento reuniu literatura, arte e diálogo em ambiente institucional.

 

A Procuradoria Geral do Estado da Bahia transformou-se, nesta sexta-feira (5), em um espaço de convivência cultural e incentivo à leitura com a realização da sua primeira Feira Literária. Com o tema “Palavras que criam raízes”, o evento inaugurou a “Árvore do Saber” e trouxe ao cotidiano da instituição uma programação voltada ao encontro, ao compartilhamento de histórias e ao estímulo à imaginação. 

 

A abertura ocorreu no Auditório Paulo Spínola, com a Procuradora Chefe do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento (CEA), Ivana Pirajá, destacando que a literatura tem papel fundamental na formação humana e na ampliação dos pensamentos. 

 

A programação começou com uma Roda de Conversa que reuniu três nomes de destaque da literatura contemporânea — Calila das Mercês, Bianca Vasconcellos e Jeferson Tenório — mediada pela Procuradora do Estado Janaina Mascarenhas. Calila falou sobre suas raízes no sertão e no Recôncavo baiano, destacando que sua formação literária mescla ancestralidade, natureza e vivência acadêmica. Ela descreveu Planta Oração como um “livro-poema-conto” no qual oralidade e ritmos ancestrais se entrelaçam para transformar narrativas em meditações.

 

Para Calila, “A minha vida começou a se entrelaçar com minha jornada acadêmica e isso também começou a influenciar minha relação com a literatura, sem limitá-la a esse espaço. A trilha acadêmica direcionou os rumos e lugares onde morei, mas eu gosto de pensar além, eu gosto de sentir a natureza, e ela me inspira.”

 

Bianca tratou da escrita como um exercício de escuta — uma escuta que nasce das relações com vidas reais, num processo de simbiose consigo e de envolvimento existencial com a criação literária. Ela relatou que escreve de forma visceral, como acontece em Morro Doce, obra inspirada na história de Apolo Pinheiro. Para a autora, literatura e jornalismo dialogam em um gesto de respeito e sensibilidade. “Eu não tenho lugar de fala, pois não vivi a transexualidade que ele viveu, mas tenho lugar de escuta”, afirmou.

 

Jeferson Tenório descreveu a escrita como um trabalho que convoca o corpo, a memória e a responsabilidade de dar voz a histórias muitas vezes invisibilizadas. Ele explicou que seu processo criativo é intenso e visceral e defendeu que a literatura deve humanizar e conectar, nunca excluir. Alertou, ainda, para os riscos de linguagens excludentes - como a jurídica - quando se afastam da compreensão popular.

 

Segundo ele, “chego a adoecer no processo da escrita, como no último, ‘De onde eles vêm’. Eu me envolvo com a história. Este, eu desejei fazer, diferente de ‘O avesso da pele’, que escrevi entender tratar-se de algo necessário. Em ‘De onde eles vêm’, eu desejei mostrar, sem ser de maneira didática, sem despertar pena do personagem, o lado humano e suas complexidades. A ideia é mostrar que, em geral, a gente é conduzido a esquecer de onde vem, da nossa origem - e isso, por um viés filosófico, quer dizer que, se você não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. Não quer dizer que não possa mudar, mas é preciso se reconhecer no processo. Como na história, o jovem começa a se afastar de si à medida que precisa se adaptar e ser aceito em um ambiente hostil e excludente.”

 

Entre o público, o estagiário de curso técnico Jonatas Palma, que produz mangás, destacou como a conversa o inspirou. “Ouvir essas vozes distintas me fez entender que minha própria escrita também nasce do que vivo. Mesmo escrevendo mangá, cada personagem que crio carrega pedaços de mim e de onde venho.”

 

Após a roda de conversa, a Feira prosseguiu com a Feirinha de Troca de Livros na Área de Convivência, reunindo leitores interessados em compartilhar obras, descobrir novos títulos e conversar sobre experiências literárias. O espaço se tornou ponto de encontro para comentários sobre autores, trocas de recomendações, debates sobre eventos culturais e até a formação de novas redes de contato.

 

Para Thais Fazzio, coordenadora de Controle Interno da Secretaria de Política para as Mulheres (SPM), a iniciativa surpreendeu positivamente. “Vim de forma despretensiosa e nunca tinha visto uma feira literária aqui. Gostei da proposta de troca de livros. Acompanhei o painel com os escritores, também. Eu sou uma pessoa que cresceu lendo, desde a infância. Devorava mais de 80 livros por ano; agora, na fase adulta, termino com 20, por conta da rotina. Foi muito bom não só trocar livros, como trocar ideias, ter spoilers, ouvir dicas... Eu não sei quantos eu troquei, só sei que os que trouxe, todos foram levados.”

 

Já Rafaela Carneiro, REDA na Procuradoria Judicial (PJ), celebrou o espaço de diálogo possibilitado pelo encontro. “Não consegui me preparar para a troca de livros, mas fiquei feliz com a doação de livros, onde consegui garimpar vários títulos e ainda conhecer outras pessoas, conversar sobre literatura, pegar dicas de outros livros. Troquei contatos e vamos continuar trocando ideias, saber de outras feiras, outros encontros...”

 

O mesmo ambiente recebeu, ainda, o Sarau Literário, um momento especial de expressão e partilha, reunindo apresentações de poesias, textos autorais, leituras, performances musicais e outras manifestações artísticas. Para Adriane Lima, integrante do programa Primeiro Emprego na PGE, a experiência foi inspiradora. “Além de ter tido a oportunidade de conhecer o Jeferson Tenório, autor do livro ‘De onde eles vêm’, que debatemos no último Clube da Leitura aqui da PGE, a gente pôde mostrar um pouco da obra dele com a esquete que fizemos, para mostrar às pessoas o que elas podem ver no livro e incentivar o hábito da leitura e, quem sabe, estimulá-las a comprar o livro dele.”

 

Encerrando a programação, a palestra “Reflorestamento do imaginário”, conduzida pela ativista indígena Guarani, escritora e psicóloga Geni Núñez, trouxe uma reflexão profunda sobre as monoculturas do pensamento e o modo como a colonização moldou - e ainda molda - a forma como enxergamos o mundo. Geni explicou que o processo colonial europeu não se limitou à tomada de territórios, mas avançou sobre o imaginário dos povos originários, impondo a ideia de que só seriam vistos como “gente” quando conseguissem repetir a fala, o comportamento e a lógica dos colonizadores. Segundo ela, esse apagamento sistemático criou rupturas que reverberam até hoje, afetando a forma como identidades, saberes e narrativas indígenas são percebidos na sociedade contemporânea.

 

Ao discutir a disputa simbólica entre bem e mal, Geni provocou o público ao afirmar que, historicamente, “na briga entre o bem e o mal, o bem fez coisas terríveis”. A frase, carregada de impacto, levou a plateia a refletir sobre como discursos supostamente “civilizatórios” foram usados para justificar violências, apagamentos e formas de controle. Por isso, defendeu, a palavra - sobretudo a palavra escrita, tantas vezes negada aos povos indígenas - torna-se instrumento de resistência, reconstrução e retomada do território simbólico. Para ela, escrever é reflorescer a memória coletiva, abrir brechas na narrativa dominante e ampliar o direito de existir em voz própria. “A escrita não nos afasta da tradição; ela a prolonga”, disse, ressaltando que cada texto produzido por autores indígenas hoje funciona como semente de um outro imaginário possível.

 

Para Geni, “reflorestar o imaginário” significa abrir espaço para pluralidades, de corpos, culturas, línguas, afetos e narrativas, como forma de resistência e reconquista. “Não precisamos de mais reforço de hierarquia; precisamos justamente de acolhimento à nossa pequenez.”

 

Milena Tavares, colaboradora da Coordenação de Projetos/Programa Inova Bahia Turismo da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (SETUR) e filha do historiador e escritor brasileiro, imortal da Academia de Letras da Bahia, Luís Henrique Dias Tavares, afirmou:

 

“Fui muito atraída pela proposta da Feira Literária da PGE, por oferecer um programa qualificado e sensível. A mesa de escritores pela manhã, nos trouxe oportunidade única de ouvir a experiência de quem traduz mais que palavras, pois o texto nos traz sentimentos, visões de mundo repletas de acontecimentos e influências... de fato, como alguém destacou na audiência: pessoas são livros. O momento da árvore de livros, trocas e especialmente o Sarau foi único para mim, que por tanto tempo guardei as palavras no papel, hoje elas literalmente voaram. E se a emoção transbordou e molhou o rosto, foi porque as palavras libertam. E aqui foram acolhidas. Gratidão. Vim também para ouvir a ativista indígena Guarani Geni Núñez, escritora e psicóloga. Muito interesse em tudo que nos trouxe sobre ‘Reflorestamento do imaginário’.” 

 

Com esta primeira edição, a Feira Literária da PGE-BA se consolida como instituição que preza pela cultura, a leitura, o diálogo e a pluralidade de vozes. A expectativa é que o evento se consolide na agenda institucional e que as “raízes” plantadas hoje deem frutos de reflexão, criação e convivência pelos próximos anos. 

Fonte
ASCOM PGE-BA
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