Qual a Bahia que queremos ter em 2050? E o que faremos para alcançar esse objetivo? Essas são perguntas fundamentais na construção de uma visão de futuro. Para a Secretaria Estadual do Planejamento (Seplan), tão importante quanto as perguntas que orientam o planejamento é o caráter coletivo desse processo, que contará com a participação de diversas pastas da administração estadual, conselhos de políticas públicas, segmentos sociais, universidades e setor produtivo.
Esse processo de construção coletiva, que integra a atualização do Plano de Desenvolvimento Integrado (PDI) – Bahia 2050, teve início nesta segunda-feira (9), com a realização do seminário “Impactos da tecnologia no serviço público e no planejamento de longo prazo”, promovido pelo Governo do Estado, por meio da Seplan. Este foi o primeiro dos encontros setoriais, que, assim como os seminários macroterritoriais, integram a estratégia de atualização do plano. O evento teve como público-alvo servidores de diversos órgãos e secretarias estaduais.
Durante a abertura, o secretário estadual do Planejamento, Cláudio Peixoto, destacou o fortalecimento da função planejamento no Governo Federal e a centralidade que o planejamento de longo prazo tem assumido na agenda nacional. Ele também justificou a necessidade de ampliar o horizonte do planejamento estadual de 2035 para 2050:
“A atualização do PDI se justifica pelas profundas transformações que marcam o nosso tempo. Estamos diante de emergências climáticas cada vez mais graves, do avanço acelerado das tecnologias, da transição demográfica e de um cenário geopolítico instável. Esses fatores impõem novos desafios ao Estado, exigindo um planejamento mais dinâmico, participativo e orientado por evidências. Com o Bahia 2050, queremos transformar incertezas em oportunidades e construir, de forma coletiva, as bases de um desenvolvimento mais justo e resiliente para as próximas gerações.”
Responsável pela apresentação do projeto de atualização do PDI, que se estenderá até o final do ano, o superintendente de Planejamento Estratégico da Seplan, Ranieri Barreto, detalhou as etapas já realizadas — como diagnóstico, análise de tendências e incertezas, prospecção de cenários e identificação de ativos e passivos — além de apresentar os próximos passos:
“Estamos diante de um processo estratégico que busca alinhar o planejamento estadual às novas realidades e desafios que se impõem ao mundo e ao Brasil. A atualização do PDI até 2050 parte da compreensão de que o desenvolvimento é um fenômeno de longo prazo e que exige visão, coordenação e transformação estrutural. Nosso objetivo é construir um plano consistente, com base em evidências, participação social e articulação com os diversos segmentos, capaz de orientar políticas públicas, reduzir desigualdades e promover o bem-estar da população baiana nas próximas décadas.”
O seminário tratou de tendências e macrotendências da economia, sociedade, cultura e política, nos planos global, nacional e regional, com foco no estabelecimento de prioridades para a atuação do planejamento estadual e na definição de metas, objetivos e programas voltados ao desenvolvimento do Estado.
O economista Jackson De Toni, técnico da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Ciência Política, participou do painel “Impactos das transformações tecnológicas no serviço público e no planejamento governamental de longo prazo”. Em sua apresentação, mesclou reflexões acadêmicas e experiências práticas, incluindo trabalhos realizados no Rio Grande do Sul e no Governo Federal.
Ao tratar de planejamento e estratégia, De Toni citou o pensador chileno Carlos Matus, que via o pensamento determinista como uma “prisão cognitiva” herdada de modelos tradicionais da economia neoclássica, por restringir a capacidade de imaginar futuros diferentes. “Este é um desafio enorme, porque ninguém sabe exatamente como fazer. Não existe uma receita de bolo. Precisamos aprender com os erros, com a experiência, estar abertos a múltiplas fontes teóricas e, fundamentalmente, saber construir consensos na sociedade”, defendeu.
O procurador da Procuradoria Geral do Estado (PGE-BA), Ailton Cardozo, também participou do painel e trouxe à tona o legado do pensador baiano Milton Santos, citando seu livro “Por uma outra globalização” e ressaltando a liberdade e a justiça como pilares fundamentais da democracia.
“Nossa Constituição tenta plasmar o sonho de uma sociedade humanizada. Ela estabelece, como objetivos da República, a construção de uma nação livre, justa e solidária. Estamos falando de aspectos centrais da democracia ocidental, mas também de algo transcendental: igualdade, liberdade e fraternidade são fundamentos da convivência. A liberdade é da essência do ser humano. Sem ela, não existe sujeito. E é importante lembrar disso, sobretudo num momento em que modelos totalizantes de gestão colocam essa liberdade em risco.”
Consulta pública e participação social
A consultoria Macroplan coordenou uma oficina interativa com os servidores públicos estaduais presentes, voltada à construção da visão de futuro da Bahia até 2050. A atividade utilizou um questionário com duas perguntas-chave, que convidavam os participantes a selecionar os atributos que melhor definem a Bahia e a gestão pública estadual no horizonte de 25 anos. As respostas deram origem a nuvens de palavras que sintetizam os principais valores e expectativas projetados para o futuro, como “sustentável”, “inclusiva”, “inovadora” e “eficiente”. Esse exercício coletivo reforça o compromisso com um planejamento participativo e alinhado aos anseios da sociedade e do corpo técnico do Estado.
Além das atividades presenciais, a atualização do PDI Bahia 2050 conta com uma consulta pública online, oficialmente lançada durante o evento desta segunda-feira (9). Por meio de um formulário disponível no site da Seplan, qualquer cidadão pode contribuir com a construção da visão de futuro do Estado. A iniciativa segue o modelo do Governo Federal, que também adotou uma consulta pública na formulação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento de Longo Prazo – Brasil 2050.
O processo já reúne um robusto conjunto de diagnósticos sobre a realidade atual do estado, seus principais ativos e desafios, além de análises de tendências e incertezas — nacionais e globais — e a construção de cenários prospectivos. A escuta ativa de diferentes segmentos da sociedade, por meio de entrevistas, oficinas, grupos focais e seminários, será fundamental para consolidar uma visão de futuro conectada com as expectativas da população baiana.
Entre os temas centrais do debate estão: o fortalecimento da gestão pública, a sustentabilidade ambiental, a transição energética e demográfica — marcada pelo envelhecimento da população —, a modernização da economia, o enfrentamento das desigualdades sociais e regionais, e a promoção de uma infraestrutura preparada para os desafios do século XXI.