Governo do Estado anuncia agenda de iniciativas para preservação da memória e da verdade sobre a ditadura militar na Bahia

02/04/2025

Ações incluem instituição de GT para criar o Memorial da Resistência à Ditadura na Bahia e o lançamento de uma nova edição do Relatório da Comissão Estadual da Verdade

O Governo do Estado, através das Secretarias de Justiça e Direitos Humanos (SJDH), da Educação (SEC), e da Cultura (Secult), vai implementar uma agenda de iniciativas voltadas à preservação da memória e da verdade sobre a ditadura militar (1964-1985). O anúncio, feito ontem (1º), na ‘6ª Marcha do Silêncio’, prevê a instituição de um Grupo de Trabalho (GT) para criação do Memorial da Resistência à Ditadura na Bahia. O pacote de ações inclui também o lançamento de uma nova edição do Relatório da Comissão Estadual da Verdade, a ser distribuída nas escolas públicas e bibliotecas estaduais.

Nas Caravanas de Direitos Humanos, coordenada pela SJDH, serão viabilizadas uma exposição e a exibição de filmes sobre a ditadura na Bahia, em parceria com a Fundação Pedro Calmon, da Secult. Além disso, o Governo da Bahia vai distribuir exemplares do livro “Ainda Estou Aqui’ (no qual foi baseado o filme homônimo vencedor do Oscar 2025), e outros títulos que levem o tema para às salas de aulas das escolas estaduais, pela SEC; a aquisição de livros biográficos que fazem referência a líderes da resistência à ditadura na Bahia; além da promoção de lançamentos de obras similares em feiras literárias.

Outras instituições também anunciaram ações no ato. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) divulgou a entrega de certidões de óbito para familiares de desaparecidos políticos; e a Universidade Federal da Bahia (UFBA) fará a diplomação póstuma de quatro estudantes mortos durante o período.

“A Marcha do Silêncio é uma grande aula pública de democracia e cidadania sobre a história do nosso país. Para a SJDH e o Governo da Bahia é importante fortalecer essas iniciativas da sociedade que chamam a atenção para o valor da democracia e destacam a importância da organização popular”, ressaltou o titular da SJDH, o secretário Felipe Freitas.

“Foi muito emocionante acompanhar a saída da marcha e cumprir o seu objetivo que é falar sobre esses homens e mulheres que lutaram para construir um país livre. Temos um trabalho grande em reparar e promover a justiça. Essas ações são fundamentais para que a sociedade conheça a nossa história”, destacou o ex-ministro dos Direitos Humanos, atual assessor Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade da pasta, Nilmário Miranda.

Marcha do Silêncio
Carregando faixas com os dizeres ‘Ainda Estamos Aqui’ e ‘Sem Anistia aos Golpistas’, a ‘6ª Marcha do Silêncio’ relembrou um dos episódios mais sombrios da história do país: a Ditadura Militar (1964-1985). O ato, promovido pelo ‘Grupo Tortura Nunca Mais Bahia – GTNM-BA’, e organizações da sociedade civil, com apoio da SJDH, trouxe para as ruas do centro de Salvador, um clamor por reparação e justiça às vítimas do regime, saindo em defesa da democracia.

“A ditadura viola os direitos humanos. Com a ditadura militar, não há como garantir direitos e dignidade humana para a população. E nós queremos dignidade, liberdade e acesso aos nossos direitos. Isso aqui é uma luta, é de dizer ‘prisão para os golpistas’, é um dia para dizer ‘sem anistia para os golpistas’, para que eles sejam punidos e para que movimentos como esses não existam mais”, afirmou a presidente do ‘Tortura Nunca Mais’, Sirlene Assis.

Militantes, ativistas dos direitos humanos, centrais sindicais, professores, estudantes e representantes dos poderes Executivo e do Legislativo marcharam da Praça da Piedade até o Campo da Pólvora, segurando flores e tochas em um gesto de respeito à memória dos mortos e desaparecidos políticos. Na chegada, foram fixadas cruzes de madeira em frente ao monumento que homenageia as vítimas da ditadura militar, marcando o dia de luta e de protesto. De autoria do artista plástico Ray Viana, a obra inaugurada pelo Governo do Estado em 2015, tem quatro metros e traz o nome de 35 baianos desaparecidos e mortos na luta pela liberdade. O momento contou com o acalento do Coro Juvenil do Neojiba, sob a regência do maestro Joilson Cerqueira.

A luta pela democracia deixou marcas na vida de ex-presos políticos e seus familiares, que buscam, até hoje, justiça e reparação pelos males que o regime militar causou ao país durante 21 anos. “Existe esse vazio que tentamos preencher. O que nos resta é nos agarrarmos a essa memória e não deixarmos que ela se perca”, declarou Sônia Raz, irmã de uma das vítimas da ditadura, João Carlos Raz, desaparecido e morto na Guerrilha do Araguaia, que durou dois anos na região amazônica, divisa dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins, e é tida como o movimento armado mais importante depois da Coluna Prestes na história da esquerda brasileira.
 

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direitos humanos; marcha do silêncio
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